Calar Júlio Lancellotti é calar Jesus Cristo
A Igreja que pune Júlio Lancellotti se aproxima perigosamente dos fariseus, afasta-se dos Evangelhos e crava mais um prego simbólico no martírio de Cristo
Escrevo este texto na primeira pessoa porque há momentos em que a neutralidade deixa de ser virtude e passa a ser cumplicidade. A decisão da Arquidiocese de São Paulo de silenciar o padre Júlio Lancellotti — impedindo-o de transmitir missas e de usar as redes sociais — não é um gesto pastoral, nem administrativo. É um ato político. E dos mais graves. Um escândalo moral para qualquer pessoa minimamente comprometida com o Evangelho.
É incompreesível a raiva dirigida ao padre Júlio. Uma raiva persistente, organizada, que parte exatamente daqueles que se dizem defensores da fé cristã, da liberdade e da família. A mesma direita que passou anos espalhando o pânico de que Lula fecharia igrejas agora comemora, aplaude ou silencia diante da censura a um padre. A mesma direita que grita “liberdade de expressão” age como inquisidora quando a palavra é usada para defender pobres, moradores de rua e gente descartada pelo sistema.
Essa perseguição não é abstrata. Ela tem nomes, rostos e mandatos. Em São Paulo, um dos mais ferozes opositores do padre Júlio é o vereador Rubinho Nunes (União Brasil), figura recorrente na campanha de difamação contra o trabalho pastoral desenvolvido há décadas na região central da cidade. Rubinho Nunes não ataca apenas um padre: ataca a própria ideia de que os pobres tenham direito à cidade, à dignidade e à existência. Sua cruzada contra Júlio Lancellotti expressa com clareza o encontro entre moralismo seletivo, aporofobia e interesses urbanos nada inocentes.
Padre Júlio sempre foi alvo dessa mesma extrema direita que acusa a esquerda de perseguir cristãos. A contradição é brutal. Enquanto grupos como o MBL promovem o descaso e a baderna, Júlio está nas ruas, derrubando, à marretada, os espinhos de ferro instalados para ferir corpos pobres. Esse homem não faz performance. Ele pratica o Evangelho. É, por isso mesmo, um escândalo para os falsos cristãos.
A Igreja Católica já percorreu esse caminho antes. Foi assim com o frei Leonardo Boff, silenciado pelo então cardeal Joseph Ratzinger, mais tarde papa Bento XVI. Ontem, a Teologia da Libertação. Hoje, a prática concreta da libertação. A pergunta é inevitável: a Igreja voltará a se curvar à extrema direita? Voltará a sacrificar seus profetas para preservar alianças com o poder e com o dinheiro?
Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, afirma que a medida contra Júlio seria para sua “segurança”. O argumento soa cínico quando se observa que padres e religiosos que destilam ódio, conspiram politicamente e fazem lives contra o comunismo seguem absolutamente livres. Frei Gilson pode. Padre Júlio não. Isso não é zelo pastoral. É perseguição religiosa por motivação política.
Também não é coincidência que o trabalho de Júlio incomode profundamente o capital imobiliário. Ao acolher pessoas em situação de rua nas imediações da paróquia, ele confronta interesses poderosos, aliados a uma lógica individualista e brutal do capitalismo urbano. Dar pão, acolher corpos indesejados e afirmar que pobres têm direito à cidade é um ato profundamente subversivo. E, por isso mesmo, intolerável para certos setores.
Chama atenção, ainda, o silêncio ensurdecedor de figuras midiáticas da Igreja. Padre Fábio de Melo publicou dezenas de postagens recentes e não encontrou espaço para uma única palavra pública em defesa de Júlio Lancellotti. Preferiu cuidar de suas dores individuais enquanto um irmão de batina era atacado por viver o Evangelho sem maquiagem. O contraste é revelador de uma Igreja cada vez mais confortável com o espetáculo e cada vez mais distante da cruz.
Dom Odilo precisa ser cobrado por explicações claras: quais fundamentos evangélicos sustentam essa decisão? Houve pressão política ou econômica? Qual o impacto direto sobre o trabalho junto à população em situação de rua? Não é aceitável que um sacerdote com trajetória reconhecida nacional e internacionalmente seja silenciado por cumprir, com rigor, aquilo que Cristo ensinou.
Silenciar quem acolhe, alimenta e defende os mais vulneráveis é escolher um lado. E esse lado não é o de Jesus. A Igreja que pune Júlio Lancellotti se aproxima perigosamente dos fariseus e saduceus, afasta-se dos Evangelhos e crava mais um prego simbólico no martírio de Cristo. Informação não se cala. Solidariedade não se censura.
Vivemos um tempo em que, incapazes de impor uma ditadura ao país, certos grupos tentam criar pequenas ditaduras morais em seus espaços de poder. Mas o verdadeiro cristianismo sempre vence, ainda que demore, ainda que custe caro. Padre Júlio Lancellotti é patrimônio da humanidade. Sempre esteve ao lado dos pobres, enfrentando a violência do Estado, a aporofobia e o ódio dos falsos cristãos.
Toda vez que censuram alguém como ele, perdem os desamparados. Perde São Paulo. Perde a Igreja. Perde o Evangelho. E a pergunta permanece, incômoda e necessária: a quem interessa — politicamente, economicamente e ideologicamente — calar Júlio Lancellotti?
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