Bolsonaro não fez tudo sozinho, foi ajudado por oportunistas, covardes, pusilânimes
Sempre houve idiotas gritando, nas ruas, palavras bizarras que são levadas pelo vento
Por Leonardo Sakamoto, jornalista, no facebook
Da estratégia eleitoral ao seu desprezo pela vida, as razões que levaram Jair Bolsonaro a transformar o Brasil em ameaça sanitária global, sopa de novas variantes de covid e cemitério a céu aberto do mundo são conhecidas. Por isso, em algum momento, será condenado pelos tribunais e pela História. Contudo, não podemos esquecer que todo massacre é também um empreendimento coletivo.
E que empreendimento! Sábados eram dias em que a morte dava a ilusão do descanso porque a capacidade de testagem para covid é reduzida. Neste sábado (20), o pior de toda pandemia, tivemos 2.331 óbitos registrados. Segundo o cristianismo, no sétimo dia, o criador descansou. Mas o vírus, não, o vírus nunca descansa.
Bolsonaro não seria capaz de fazer tudo o que fez sozinho. Sempre houve idiotas gritando, nas ruas, palavras bizarras que são levadas pelo vento. Mas as dele encontraram eco, resposta e apoio. Fincaram raízes.
O presidente teve ajuda, o presidente tem ajuda. De psicopatas, de oportunistas, de covardes, de pusilânimes, de pessoas que se preocupam apenas com sua felicidade, seus projetos e seu lucro enquanto uma montanha de mortos se ergue no horizonte.
Eles estão em toda parte. Podem ser encontrados nas mesas diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Nos gabinetes de tribunais pelo país. Nos corredores palacianos, usando farda ou terno. No chão dos quartéis ou em chefias das Forças Armadas e das polícias. Em eventos e coquetéis, como carreiristas que fazem o que for necessário para chegar ao STF. Em terras griladas, desmatadas e contaminadas por agrotóxicos. Nos garimpos ilegais em áreas indígenas. Pelos púlpitos de certos templos e altares de algumas igrejas. Em confortáveis salas de operadores do mercado financeiro. Cobrando por segurança em territórios de milícia. Em protestos contra máscaras e vacinas e a favor de vermífugos. Comprando armas e munições para o momento em que o mito precisar. Em megabaladas clandestinas, enquanto a morte dispara. Ou, algumas vezes, nas nossas próprias famílias e grupos de WhatsApp.
É cômodo pensar que o ódio se resume a uma única pessoa que contaminou as demais. Isso tira a culpa coletiva e simplifica um processo que inclui papéis como sócios, aliados, vassalos, seguidores e enganados. Por isso, Bolsonaro é causa, mas também consequência, sua necropolítica não é uma falha, um projeto de vários grupos que, às vezes, nem se bicam entre si.
Ele não sai, seja renúncia ou impeachment, não só porque o Brasil está letárgico devido ao isolamento social e à longa pandemia ou porque conseguiu a simpatia de uma parte dos trabalhadores pobres por conta do auxílio emergencial no ano passado. Há uma parte do país que se reconhece nele e que nele reconhece um bom negócio.
O processo de parceria é diferente do processo de manipulação. É compreensível que a covid gere um sentimento de impotência em uma parcela da população diante da falta de informação sobre os efeitos e o tratamento, uma doença nova e que ainda está em estudo. Isso abre espaço para que líderes demagógicos preencham as lacunas, mesmo com mentiras, e apontem soluções que não resolvem. Parte da população abraça essas soluções em busca de alguma coerência para suas vidas. E toma vermífugos que não matam vírus, só vermes.
A boa notícia de uma releitura da filósofa alemã Hanna Arendt, se é que há uma, é que quando o movimento autoritário cai, muitas pessoas podem mudar seu comportamento. "Embora estivessem antes dispostos a morrer como robôs (...), abandonam calmamente o movimento como algo que não deu certo e procuram em torno de si outra ficção promissora, ou esperam até que a velha ficção recupere força."
Quando chegar esse momento, muitos sócios, aliados e vassalos do presidente vão dizer que foram enganados por ele como parte dos cidadãos comuns também foi. Outros vão negar que fizeram o que fizeram. E calmamente pularão de um barco para o outro, como ratos.
Será um esforço grande, mas necessário, lembrar cada um que poderia ter feito algo para impedir a continuidade desse massacre, mas preferiu seus cálculos políticos e econômicos. E dar a eles o mesmo destino do presidente, na Justiça e na História.
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