Oscar de Barros

Bolsonaro em lágrimas: agora ele chora – mas o Brasil já chorou muito antes

O gesto foi celebrado por seus fiéis seguidores, que veem no pranto um sinal de arrependimento, ou quem sabe, de perseguição divina. Nada que um bom culto e um bom marketing não resolvam


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Antes, valentão; agora, chorão

Na manhã desta quinta-feira (24), Jair Bolsonaro resolveu fazer aquilo que tanto zombou no passado: chorar. Em pleno culto evangélico na Catedral da Bênção, em Taguatinga (DF), o ex-presidente entregou-se às lágrimas diante da congregação. O motivo? Uma combinação de fé, tornozeleira eletrônica e o apertado cerco judicial que cada vez mais parece se fechar ao seu redor.

O momento de emoção ocorreu enquanto sua esposa, Michelle Bolsonaro, declarava amor em público: “Marido, te amo”, disse, com ares de pastora do lar. Foi o suficiente para o ex-capitão baixar a cabeça e enxugar as lágrimas. O gesto foi celebrado por seus fiéis seguidores, que veem no pranto um sinal de arrependimento, ou quem sabe, de perseguição divina. Nada que um bom culto e um bom marketing não resolvam.

A cena acontece no mesmo dia em que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, decidiu manter as medidas cautelares impostas ao ex-presidente, incluindo a tornozeleira eletrônica. Bolsonaro, que sempre cultivou o personagem do durão, teve que engolir seco e aceitar que, ao menos por enquanto, escapou da prisão – mas segue sob vigilância eletrônica, como um adolescente pego no flagra.

Para quem mandava fazer cartaz dizendo que “quem procura osso é cachorro” quando famílias buscavam restos de parentes assassinados na ditadura, o choro público é uma guinada e tanto. Para quem debochava dos doentes na pandemia, imitava gente com falta de ar e chamava a Covid de “gripezinha”, o momento atual tem sabor de ironia histórica.

Enquanto milhões de brasileiros choravam a perda de entes queridos, muitos sem vacina e sem assistência, Bolsonaro sorria e promovia motociatas. Agora, é ele quem se comove porque não pode ir ao McDonald's com a filha. Michelle, queixosa, lamenta ter que esperar no carro por segurança. Aparentemente, para a família Bolsonaro, o verdadeiro drama é o drive-thru da opressão.

A cerimônia religiosa foi prestigiada por aliados fiéis: o filho Jair Renan, o senador Magno Malta, e, claro, Michelle – a guardiã dos bons costumes e das lives gospel. O ex-presidente permaneceu em silêncio o tempo inteiro, sentado na primeira fila, calado como nunca esteve durante seus anos no Planalto.

Agora, sob risco de prisão, Bolsonaro se diz vítima. Mas durante seu governo, foram as vítimas que não tiveram chance de dizer nada. 


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