Bolsonaristas ressuscitam, com fúria, a campanha antivacina. Por quê?
Ao distorcer o diário de Anthony Fauci para ressuscitar a cloroquina e a campanha antivacina, a extrema direita entrega a Lula mais uma bandeira eleitoral: a defesa da ciência
Por Miguel do Rosário, jornalista, no Cafezinho
Os bolsonaristas decidiram voltar ao terreno onde sofreram uma de suas maiores derrotas políticas e morais: a pandemia de Covid-19. No momento em que o Brasil inicia uma nova campanha nacional de multivacinação, influenciadores e parlamentares da extrema direita voltam a lançar suspeitas contra vacinas e a defender medicamentos que fracassaram nos testes clínicos.
O pretexto é o chamado diário de Anthony Fauci, o médico que se tornou o rosto da resposta sanitária dos Estados Unidos à pandemia. Nikolas Ferreira, Eduardo Bolsonaro e Caroline de Toni apresentam a divulgação desses documentos como uma revelação definitiva, que provaria que Fauci mentiu sobre vacinas, máscaras, distanciamento e hidroxicloroquina.
O problema é que os documentos não dizem nada disso.
Fauci depôs ao Senado americano em 29 de julho, numa audiência presidida pelo republicano Rand Paul, seu adversário desde o início da pandemia e defensor da hipótese de que o vírus escapou de um laboratório em Wuhan. Diante de mais de cem perguntas, Fauci invocou a Quinta Emenda, que protege qualquer cidadão contra a obrigação de produzir provas contra si mesmo.
A cena foi politicamente desastrosa para ele, mas silêncio não é confissão. Fauci argumentou que Paul tentava criar uma nova base jurídica para processá-lo, já que uma eventual declaração falsa na audiência não estaria coberta pelo perdão preventivo concedido por Joe Biden em janeiro de 2025.
Antes da audiência, Paul divulgou 1.141 páginas de registros produzidos por Fauci entre dezembro de 2019 e dezembro de 2022. Não se trata de um diário íntimo, e sim de uma mistura de anotações pessoais, atas de reuniões, e-mails, recortes de jornal e comentários sobre decisões tomadas no meio do furacão.
Os documentos mostram dúvidas, erros de avaliação, disputas políticas e mudanças de orientação, o que é muito diferente de uma confissão de fraude. Não há neles nenhuma defesa da ivermectina nem qualquer reconhecimento de que a hidroxicloroquina funcionava.
A primeira anotação relevante sobre o medicamento é de 17 de março de 2020, quando Fauci registra relatos vindos da França e acrescenta, em seguida, que eram estudos não controlados. No dia seguinte, Trump telefonou dizendo que 51 pacientes haviam tomado hidroxicloroquina e todos haviam melhorado, e que queria liberar o remédio imediatamente.

Fauci escreveu que respirou fundo e respondeu que aquilo estava errado: o medicamento deveria ser testado dentro de um protocolo monitorado, capaz de medir eficácia e segurança. Em abril, chamou de anedóticas as evidências apresentadas pelo conselheiro Peter Navarro.
Em junho, quando a autorização emergencial da cloroquina foi retirada, anotou que sempre fora contrário à medida por falta de indícios mínimos de eficácia. De todo modo, a questão não depende da opinião de Fauci.
Dezenas de ensaios clínicos com milhares de pacientes mostraram que a hidroxicloroquina não reduziu mortalidade nem necessidade de ventilação mecânica, e a ivermectina tampouco demonstrou eficácia nos estudos de melhor qualidade. Fauci poderia ter escrito poemas de amor à cloroquina em seu diário e isso não mudaria o resultado dos ensaios.
Sobre vacinas, o material contém discussões sobre efeitos adversos, duração da proteção e necessidade de reforços, exatamente o que se espera de uma autoridade sanitária. Os imunizantes tiveram limitações, mas reduziram de forma drástica hospitalizações e mortes, e até o relatório republicano usado contra Fauci reconhece isso.
Há, sim, uma admissão importante sobre máscaras, mas ela diz o contrário do que a propaganda bolsonarista sugere. Em 31 de março de 2020, Fauci escreveu que as autoridades foram enfáticas demais ao dizer, no início da pandemia, que as máscaras não funcionavam.
Ou seja, o erro admitido foi ter desestimulado o uso de um equipamento que protegia, não o de ter imposto um objeto inútil à população. Quem cita o diário para atacar as máscaras está lendo a confissão de cabeça para baixo: Fauci se arrepende justamente de ter dito aquilo que os negacionistas repetem até hoje.
A discussão mais séria dos documentos é outra: a origem do vírus. O diário mostra que a hipótese laboratorial foi levada a sério em conversas privadas entre cientistas, no mesmo período em que parte da imprensa a tratava como teoria conspiratória.
Investigar essa hipótese, o financiamento americano de pesquisas com coronavírus e a opacidade dos governos dos Estados Unidos e da China é legítimo, e a esquerda não deve fugir desse debate. Nada disso, porém, ressuscita a cloroquina ou transforma a campanha antivacina em posição racional.
Nikolas Ferreira chegou a afirmar que a hidroxicloroquina poderia ter salvado milhões de pessoas, insinuou que um problema pulmonar de Fauci teria sido causado pela vacina e falou em “partes de bebês” nas pesquisas. O método é sempre o mesmo: parte-se de um fato verdadeiro, acrescenta-se uma insinuação e chega-se a uma conclusão que o fato original não sustenta.
A nova onda de desinformação coincide com a Campanha Nacional de Multivacinação de 2026, que começou em 3 de agosto e segue até 1º de setembro para atualizar as cadernetas de crianças e adolescentes. Se a desconfiança das famílias crescer, doenças controladas como sarampo, poliomielite e meningite ganham espaço para voltar a circular.
Politicamente, o movimento é um presente para Lula. O bolsonarismo já lhe entregou a bandeira da democracia, depois da tentativa de golpe, e a da soberania, depois da submissão a Trump.
Agora entrega a defesa da ciência, uma plataforma capaz de unir esquerda, centro democrático, pesquisadores e profissionais de saúde. A aposta na mobilização do núcleo radical pode gerar engajamento, doações e votos proporcionais, mas isola o campo numa eleição presidencial, como já ocorreu no 8 de janeiro.
Os bolsonaristas acreditam ter encontrado a prova de que Bolsonaro sempre esteve certo. Encontraram um diário que não leram, um depoimento que não compreenderam e uma polêmica que não diz o que gostariam.
Fauci não é santo: seu diário contém vaidade, contradições e erros que merecem escrutínio, assim como as instituições sanitárias americanas. Mas investigar Fauci não exige abandonar a ciência, e criticar as farmacêuticas não exige defender remédios ineficazes.
É mais um tiro no pé. Mais uma bandeira entregue a Lula.
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