Arnaldo Eugênio analisa gestão de Chico Lucas em reportagem especial da Veja
Para fundamentar a análise, a revista ouviu o analista de segurança do portal Pensar Piauí, o doutor em Antropologia Arnaldo Eugênio
A mais recente edição da revista Veja traz uma reportagem especial que analisa a atuação do ex-secretário estadual de Segurança Pública do Piauí, Chico Lucas, à frente da pasta. A publicação dedica espaço relevante ao debate sobre os resultados, os desafios e as controvérsias que marcaram sua gestão, inserindo o caso piauiense em um contexto mais amplo das políticas de segurança pública no Brasil.
A reportagem destaca medidas adotadas durante o período em que Chico Lucas comandou a segurança no estado, incluindo ações de enfrentamento ao crime organizado, reestruturação administrativa e iniciativas voltadas à integração entre forças policiais.
Para fundamentar a análise, a revista ouviu o analista de segurança do portal Pensar Piauí, o doutor em Antropologia Arnaldo Eugênio. A equipe de reportagem encaminhou uma série de perguntas ao pesquisador, que respondeu de forma detalhada, oferecendo uma leitura técnica e contextualizada sobre os avanços e limitações das políticas implementadas. A partir dessas respostas, a revista construiu parte central do texto, incorporando reflexões acadêmicas sobre violência, dinâmica urbana e políticas públicas.
Arnaldo Eugênio destacou aspectos estruturais da segurança pública no Nordeste, os desafios históricos do sistema penitenciário e a necessidade de políticas que articulem repressão qualificada com prevenção social. Sua contribuição, segundo a publicação, ajudou a situar a experiência do Piauí dentro de um cenário nacional marcado por disputas narrativas e por diferentes modelos de gestão.
A reportagem, que já circula nas bancas e plataformas digitais, amplia o debate sobre segurança pública no estado e projeta o tema para além das fronteiras regionais, colocando a gestão de Chico Lucas sob escrutínio nacional.







Veja as perguntas da Revista e as repostas de Arnaldo Eugênio:
Quais os principais fatores que explica a melhora do números da segurança pública no Piauí?
O principal fator foi a profissionalização das forças de segurança. Pois, a profissionalização exigiu colocar a segurança pública como prioridade do governo, elevar o nível de seleção por concurso público, qualificar os agentes públicos, reestruturar e equipar as forças de segurança e, principalmente, produzir estudos analíticos para otimizar o uso da tecnologia. Depois, outra ação importante, foi a integração das ações das forças de segurança pública – federais, estaduais e municipais –, com base em investigações, planejamentos estratégicos, tecnologias criminais e inteligência policial.
O que o exemplo do Piauí mostra para o resto do Brasil? O que pode ser replicado a nível nacional?
Primeiro, que para se ter uma segurança pública de qualidade no Brasil não precisa reproduzir a “retórica da força contra força” ou do “bandido bom é bandido morto”, nem importar e implantar, forçosamente, algumas teorias criminalistas do tipo “Tolerância zero” e “Janelas quebradas”, que trazem consigo o discurso de autoridade e a lógica do mais do mesmo.
Segundo, para outros estados pode servir de referência, e não como um modelo pronto, de que a gestão da segurança pública pode, e deve, se constituir e se efetivar fora de discursos retóricos, através do planejamento estratégico, da tecnologia, do uso da inteligência policial, das ações integradas das forças de segurança e do diálogo institucional – pois, uma segurança pública de qualidade não é feita só com polícias.
E terceiro, para desconstruir, com eficiência e trabalho em equipe, a falsa narrativa do senso comum de que “o crime não tem jeito” se faz necessário, também, rompendo com a retórica do discurso de autoridade de especialista – de só quem é da área específica é que sabe gestar. Pois, a gestão pública eficiente é administrar os recursos públicos através da otimização, da transparência e do foco em resultados positivos para a sociedade.
Como era a situação do Piauí, em termos de segurança e principais crimes cometidos, antes dessas novas políticas da secretaria?
Antes, a pasta da segurança pública sempre foi usada para uma catarse política. Ou seja, o objetivo de quem assumia a secretaria de segurança pública não era o bem-estar da população, mas chegar ao poder político por meio de um cargo eletivo. A criminalidade não era entendida como uma questão social com desdobramentos em outras dimensões da vida em sociedade. Por exemplo, os homicídios eram banalizados, os roubos de carros se tornaram frequentes, o tráfico de drogas se intensificou, a violência policial se naturalizou, as facções se estabeleceram e muitos roubos de celulares se deram com latrocínios. Tudo isso gerou uma inquietação social, exigindo da classe política e da sociedade a construção de uma política de segurança eficaz e eficiente. Ou seja, a pressão da sociedade fez a política sair da inércia.
O investimento em inteligência é mais eficiente do que as ações ostensivas? Se sim, por que?
Não, necessariamente. Ambas são fundamentais numa política de segurança pública eficiente. Pois, quanto maior o uso de inteligência e tecnologia, mais qualificadas poderão ser as ações ostensivas. E quanto mais ações ostensivas inteligentes, maior possibilidade de inibir a criminalidade. A violência não tem fim, mas a criminalidade pode ser controlada. Assim, para lidar com as dinâmicas da criminalidade será cada vez mais necessário o uso de inteligência e tecnologia, para nortear as ações ostensivas, cuja eficiência, também, dependerá da formação e qualificação continuada dos profissionais da segurança pública.
Como conciliar o respeito aos direitos humanos com uma política de segurança firme?
Primeiro, romper com a visão distorcida do que é direitos humanos no Brasil, que foi impregnada nas forças de segurança pública. É importante tirar dos discursos policiais, políticos e dos programas policialescos a falácia de que “direitos humanos é direito de bandido”. Pois, quem a reproduz, na verdade, nunca leu sobre direitos humanos nem sabe, de fato, o que é ser “bandido” no Brasil.
Segundo, é fundamental construir uma política pública de segurança, com a participação efetiva da sociedade, que insira uma nova mentalidade policial de que uma “segurança pública firme” não é o mesmo que ser violenta, truculenta e ilegal. Mas, inteligente, com operacionais qualificados e condições de trabalho adequadas.
Por que a segurança pública passou a ser uma das maiores preocupações das pessoas?
Porque, se por um lado os investimentos em educação e saúde aumentaram, por outro lado, a insegurança pública está desestabilizando cada vez mais a vida social, repercutindo na dinâmica da vida privada e na saúde mental das pessoas. Pois, os direitos fundamentais como à vida, à liberdade, de ir e vir estão em constante ameaça. Isso faz com que a sociedade clame por segurança pública e pressione a classe política a sair da zona de conforto. Ainda mais com o avanço do crime organizado no Brasil, inclusive na seara política.
Qual vai ser o peso desse tema nas eleições?
Talvez tenha, hoje, o maior peso social e seja o maior desafio político. Se, por um lado, a direita e a extrema-direita insistem na visão ultrapassada da “força contra a força” ou do “bandido bom é bandido morto”. Por outro lado, o reconhecimento nacional da gestão pública eficiente na segurança do Piauí, pode contribuir, qualitativamente, para o debate político sobre o enfrentamento de um desafio secular no Brasil. Além disso, rompe, definitivamente, com a falácia de que “a esquerda não sabe lidar com a segurança pública”.
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