Oscar de Barros

Anos 70: período mais fértil da música brasileira?

Não quero vestir o rótulo de saudosista. Talvez seja o filtro da memória, talvez seja o tempo falando. Para mim, aquela época foi um milagre sonoro que tive a sorte de testemunhar


Reprodução Anos 70: período mais fértil da música brasileira?
Anos 70: quando a música brasileira falava com a alma

Tenho andado a viajar no tempo, embalado pelas lembranças que a música desperta, pricipalmente a brasileira dos anos 70. Nos últimos dias, mergulhei em alguns filmes e documentários que retratam artistas que se tornaram verdadeiros ícones daquela década: Ney Matogrosso, com sua ousadia estética, voz cortante e presença quase mítica; Raul Seixas, filósofo maldito, com sua rebeldia filosófica que cantava a liberdade como quem respira; Rita Lee, rainha irreverente que transformou o cotidiano em poesia e rock. Cada um deles, à sua maneira, não apenas fez sucesso, mas ajudou a transformar a música e a própria forma como a arte se relacionava com a sociedade. Avançando no tempo, vieram os anos 80, com a poesia urbana e melancólica da Legião Urbana, que falava de cidades e sentimentos como se fossem a mesma coisa; a intensidade visceral de Cazuza , incendiário e frágil, que transformava dor e desejo em versos eternos. E tantos outros que, com sua arte, não apenas embalavam, mas moldavam a alma de quem os ouvia. Sinto um privilégio quase sagrado por ter testemunhado tudo isso, por ter vivido cercado de melodias que pareciam nascer do coração do próprio Brasil.

Mas a minha memória não se limita apenas aos nomes que aparecem nas telas do cinema ou nos documentários. Havia uma infinidade de outros artistas, alguns consagrados, outros mais discretos, que compuseram o grande mosaico sonoro daquela época. Cantores, compositores e bandas que, com suas letras, melodias e arranjos, atravessaram minha vida com trilhas sonoras de amores vividos, amizades construídas, momentos de luta e de alegria, dos silêncios que também faziam parte da música. Cada acorde trazia consigo uma história, cada letra, um pedaço de vida. Eram canções que me acompanharam em momentos em que o mundo parecia pequeno demais para os sonhos que carregava.

Não quero vestir o rótulo fácil de saudosista, mas é inevitável reconhecer que, da transição dos anos 60 para os 70, passando pelos 80 e chegando aos 90, a música popular brasileira viveu um período áureo. Um tempo em que melodia e palavra caminhavam lado a lado com a história, espelhando as lutas, os amores e as transformações de um país inteiro. Os artistas experimentavam, arriscavam, ousavam — e o público respondia com entusiasmo. Hoje, a música ainda pulsa, ainda floresce, mas aquela alquimia rara — que fazia da canção um espelho da alma coletiva — parece mais distante. Talvez seja o filtro da memória, talvez seja apenas o tempo falando. Mas, para mim, aquela época foi um milagre sonoro que tive a sorte de testemunhar.



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