ÁGUA CHEGA AO SERTÃO: obra histórica transforma realidade de Dom Inocêncio
Rafael Fonteles inaugura adutora e põe fim à escassez de água em Dom Inocêncio
Rafael Fonteles inaugurou a adutora Padre Lira. A obra havia sido iniciada em 2013, supera décadas de escassez e dependência de carros-pipa. Com a nova estrutura, o município passa a viver uma transformação histórica no acesso à água e na qualidade de vida da população.
O QUE ACONTECEU
O governador Rafael Fonteles inaugurou a adutora Padre Lira, na terça-feira (27), e levou, de forma definitiva, água tratada para a população de Dom Inocêncio, no semiárido piauiense. A entrega da obra representa um marco histórico para o município e para as comunidades sertanejas da região, que durante décadas conviveram com a escassez hídrica, o racionamento e a dependência de carros-pipa. Em uma área marcada pelas longas estiagens e pela irregularidade das chuvas, o acesso à água sempre foi uma das principais chagas sociais, afetando diretamente a qualidade de vida, a saúde e o desenvolvimento local. Com a conclusão da adutora, essa realidade passa a ser superada.
A obra é resultado de um processo iniciado em 2013, durante os governos da então presidenta Dilma Rousseff e do governador Wilson Martins. Desde a concepção, o projeto buscava enfrentar um dos maiores desafios do sertão nordestino: garantir abastecimento regular para populações historicamente vulneráveis à seca. A construção teve início a partir de uma emenda parlamentar no valor de R$ 5 milhões, destinada pelo deputado federal Átila Lira. O projeto técnico foi elaborado pelo engenheiro civil Norbelino Lira, do Instituto de Desenvolvimento do Piauí (IDEP), órgão responsável pela execução da obra.
Até 2014, os recursos iniciais foram aplicados, mas a construção acabou sendo interrompida, mantendo a população em uma situação de insegurança hídrica. Com a eleição de Wellington Dias ao governo do Estado, no mesmo ano, o agora vice-prefeito de Dom Inocêncio, Marcos Damasceno, apresentou ao governador os entraves que impediam a continuidade do empreendimento. A partir desse diálogo, foi realizado um levantamento técnico que revelou a real dimensão do desafio: seriam necessários cerca de R$ 40 milhões para concluir a adutora, valor que ao final chegou a R$ 41 milhões.
A partir de 2015, o governo Wellington Dias intensificou os investimentos e acelerou a obra, sendo responsável, segundo estimativas de Marcos Damasceno, por cerca de 85% da execução, com recursos do Tesouro Estadual. A gestão de Wilson Martins deu início ao projeto, Wellington Dias consolidou a maior parte da estrutura, e coube a Rafael Fonteles concluir o trecho final e entregar a obra à população. Com isso, o Estado conseguiu transformar um antigo sonho em uma política pública concreta de enfrentamento à seca.
A adutora possui aproximadamente 51 quilômetros de extensão, com captação no açude Jenipapo, localizado entre os municípios de São João do Piauí e Dom Inocêncio. Ao longo do percurso, foram instaladas 18 caixas de distribuição, além de uma grande caixa principal na sede do município, responsável por armazenar e distribuir a água para a população. Trata-se de uma infraestrutura estratégica para uma região onde a irregularidade das chuvas sempre impôs limites severos à vida cotidiana.
Durante anos, a maior dificuldade enfrentada pela população era justamente a chegada da água até essa estrutura central. Com a conclusão dessa etapa, o abastecimento deixou de ser uma promessa distante e passou a integrar a rotina dos moradores. A partir da caixa principal, a Prefeitura de Dom Inocêncio, em parceria com a concessionária Águas do Piauí, vem ampliando a rede de distribuição urbana.
O processo de implantação da rede já apresenta avanços significativos, com diversos bairros atendidos por água encanada. Ainda há localidades que dependem da expansão do sistema, mas a perspectiva é de universalização do serviço. A parte sob responsabilidade do Governo do Estado — que envolveu a captação no açude Jenipapo e o transporte até a sede do município — já foi totalmente concluída, garantindo a base estrutural necessária para o funcionamento pleno do sistema.
Historicamente, Dom Inocêncio, assim como grande parte do semiárido nordestino, conviveu com a precariedade no abastecimento. Atualmente, o município possui mais de dois mil imóveis na área urbana. Durante anos, a maior parte da população dependeu de carros-pipa, recebendo água de forma limitada e irregular, insuficiente para atender às necessidades básicas. Apenas a região central contava com abastecimento desde 2004, a partir de um poço perfurado no primeiro mandato de Wellington Dias, com vazão aproximada de 20 mil litros por hora.
Com o crescimento da cidade e a formação de novos bairros, esse sistema tornou-se insuficiente, aprofundando a desigualdade no acesso à água. A escassez afetava a higiene, a alimentação, a produção doméstica e o próprio sentimento de dignidade das famílias sertanejas, historicamente marcadas pela luta contra a seca.
A entrega da adutora Padre Lira, sob a gestão de Rafael Fonteles, simboliza a superação desse ciclo de vulnerabilidade. Ao garantir água permanente para Dom Inocêncio, o governo estadual enfrenta uma das maiores feridas sociais do semiárido e cria condições reais para o desenvolvimento humano, econômico e social da região. O problema crônico do abastecimento, que por décadas marcou a vida da população, deixa de existir como obstáculo estrutural.
Com a conclusão da logística e da rede urbana, a operação do sistema ficará sob responsabilidade da Águas do Piauí, que passará a administrar o abastecimento no município. A obra consolida-se, assim, como um legado duradouro para o sertão piauiense, transformando a relação histórica da população com a água e inaugurando um novo tempo para Dom Inocêncio.
Quem foi o Padre Lira, que dá nome à adutora?

Padre Manuel Lira Parente foi uma das figuras mais emblemáticas do semiárido piauiense, um sacerdote cuja vida e obra estiveram profundamente ligadas à luta histórica contra a escassez de água e à promoção de desenvolvimento social no interior do Piauí. Ele morreu em 13 de setembro de 2015, aos 96 anos, em um hospital particular em Teresina, em decorrência de falência múltipla dos órgãos, deixando um legado duradouro na região que tanto serviu.
Natural de Bom Jesus da Gurgueia, Padre Lira dedicou mais de seis décadas de sua existência ao trabalho pastoral, social e político no sertão piauiense. Desde meados da década de 1960, ele foi protagonista de uma série de iniciativas que transformaram a realidade de comunidades marcadas pela pobreza extrema, pelo analfabetismo e pela vulnerabilidade às secas prolongadas.
Uma de suas maiores contribuições foi a fundação, em 1959, da Fundação Ruralista, organização social que se tornou referência nacional e internacional na promoção da educação, da convivência com o semiárido e da geração de renda no campo. Por meio da Fundação, Padre Lira impulsionou a construção de estradas, açudes, cisternas para captação de água de chuva, unidades de saúde e um método de ensino que praticamente zerou o analfabetismo na região.
O trabalho educacional da Fundação Ruralista foi um diferencial seminal. A instituição inaugurou redes de escolas rurais que chegaram a atender milhares de estudantes e introduziu atividades pedagógicas e produtivas que ajudaram a elevar a renda das famílias sertanejas. A iniciativa também ganhou reconhecimento internacional, como no livro Um Homem contra a Seca, escrito pela autora inglesa Peggie Benton, que registrou o impacto das ações de Lira entre as comunidades mais pobres do Brasil.
Além de sua atuação social, Padre Lira teve uma trajetória na administração pública. Foi prefeito por vários mandatos em municípios do semiárido piauiense: exerceu a chefia do Executivo em São Raimundo Nonato entre 1955 e 1958 e posteriormente foi três vezes prefeito de Dom Inocêncio, município que ajudou a fundar e emancipar em 1988. Também atuou no cenário político estadual como suplente de senador.
A vida de Padre Lira foi marcada pela crença de que a educação e o enfrentamento da seca eram caminhos indispensáveis para promover dignidade à população sertaneja. Seu trabalho inseriu soluções práticas em um contexto de carência histórica, contribuindo para a melhoria das condições de sobrevivência no semiárido.
Ao falecer, a sua partida foi marcada por homenagens de autoridades e da população local, refletindo o reconhecimento coletivo por um homem que se tornou referência na luta pelos direitos e pela cidadania das comunidades sertanejas.
Dois grandes educadores do Piauí: Padre Lira e Marcílio Rangel (Dom Barreto)
Deixe sua opinião: