Acusando o golpe, bancanda do PL anuncia voto a favor da escala 4 x 3
PT acusa PL de tentar sabotar votação do fim da escala 6×1 e movimento pelo fim da escala 6×1 reage
O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, mudou de estratégia às vésperas da votação da PEC que propõe o fim da escala 6×1 na Câmara dos Deputados. Depois de meses criticando a proposta, a legenda anunciou nesta terça-feira (26) que passará a defender um modelo ainda mais amplo: a escala 4×3, com quatro dias de trabalho e três de descanso semanais.
A mudança de posição, no entanto, foi interpretada por parlamentares governistas e lideranças da esquerda como uma tentativa de tumultuar a tramitação da proposta, constranger o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e atrasar a aprovação da PEC que reduz a jornada de trabalho sem corte salarial.
A estratégia foi anunciada pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante. Segundo ele, o partido pretende apresentar um destaque para tentar colocar em votação a proposta da deputada Erika Hilton, que prevê a adoção da escala 4×3, substituindo o texto atualmente discutido na comissão especial.
Hoje, a PEC relatada por Leo Prates avança em torno da escala 5×2, com dois dias de descanso semanal, redução gradual da jornada para 40 horas e manutenção dos salários.
Nos bastidores da Câmara, parlamentares avaliam que o PL tenta criar uma “armadilha política”. Após meses atacando o fim da escala 6×1, o partido agora busca se apresentar como defensor de uma proposta ainda mais favorável aos trabalhadores, obrigando o governo a rejeitar um texto considerado inviável no atual cenário político. A avaliação de governistas é que a manobra pode atrasar ou até inviabilizar a votação da PEC que já teria maioria para avançar.
Durante discurso em plenário, Sóstenes Cavalcante afirmou que o PL defenderá a “liberdade econômica” e criticou o governo federal.
“Nós, do PL, vamos defender sempre o liberalismo econômico e a relação livre, para que o trabalhador trabalhe quantas horas e quantos dias ele quiser. Na hora da votação em plenário, apresentaremos destaque para votar a escala 4×3 porque somos favoráveis ao trabalhador trabalhar menos e conviver mais com a família”, declarou.
PT acusa PL de tentar sabotar votação do fim da escala 6×1
O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai, reagiu duramente e classificou a movimentação do PL como “demagogia” e “cortina de fumaça”.
Segundo Uczai, o partido tenta apagar o histórico recente de oposição à pauta trabalhista justamente no momento em que a proposta ganha apoio popular e força no Congresso.
“O povo brasileiro não acredita em tanta mentira. O senador Flávio Bolsonaro está fazendo escola com vocês”, ironizou.
O petista lembrou ainda que, há poucos dias, 176 deputados votaram contra o fim da escala 6×1 — sendo 62 parlamentares do próprio PL. Uczai também citou uma emenda apresentada pelo deputado Sérgio Turra que, segundo ele, flexibiliza regras trabalhistas, amplia o limite semanal para até 52 horas e prevê prazo de dez anos para implementar a redução da jornada.
“Queremos o fim da escala 6×1 com adoção da escala 5×2, garantindo descanso e mais qualidade de vida para os trabalhadores”, afirmou.
O líder petista ainda acusou a extrema direita de tentar travar uma pauta defendida principalmente pelos jovens trabalhadores brasileiros.
Governo Lula critica “manobra” do PL
A movimentação também provocou reação dentro do Palácio do Planalto. O ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou que o PL estaria fazendo “pirotecnia política” com uma pauta sensível para a classe trabalhadora.
“Eles passaram meses combatendo a PEC do fim da escala 6×1 e agora tentam criar confusão com uma proposta que nem sequer avançou nas comissões. Isso não é sério”, declarou.
A deputada Daiana Santos também acusou o partido de atuar para atrasar o debate.
“O PL passou meses sabotando a discussão sobre o fim da escala 6×1. Agora, às vésperas da votação, anuncia uma proposta mais ampla apenas para tumultuar”, afirmou.
Já o deputado Henrique Vieira disse que o partido tenta “enganar o povo trabalhador”.
“Passaram meses defendendo a livre negociação entre patrão e empregado e agora aparecem defendendo escala 4×3? É manobra política”, declarou.
A deputada Célia Xakriabá também criticou a mudança repentina de posição do partido.
“Os mesmos que assinaram proposta para adiar o fim da escala 6×1 por dez anos agora fingem defender os trabalhadores”, disse.
Movimento pelo fim da escala 6×1 reage
Um dos principais nomes da mobilização nacional pelo fim da escala 6×1, Rick Azevedo afirmou que a mudança de discurso do PL não possui sustentação prática na tramitação da PEC.
“É óbvio que queremos avançar para uma escala 4×3. Mas o próprio PL impediu o avanço desse debate nas comissões. Agora usam isso como narrativa para obstruir a votação da proposta que está pronta para avançar”, declarou.
A PEC 221/19, de autoria do deputado Reginaldo Lopes, altera o artigo 7º da Constituição para reduzir a jornada semanal de trabalho. A proposta será analisada pela comissão especial da Câmara nesta quarta-feira (27).
Para o governo Lula, a aprovação ainda neste semestre é considerada estratégica. O Congresso terá recesso em julho e o calendário eleitoral tende a esvaziar as votações no segundo semestre.
Nos bastidores, aliados do governo avaliam que a estratégia do PL repete movimentos já usados em outras pautas populares: defender publicamente propostas mais amplas para dificultar a aprovação do texto que realmente está próximo de avançar no Congresso Nacional.
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