Segurança Pública

À polícia e ao Estado falta inteligência; alternativa: ir para a porrada

Tudo isso alegra milicianos que ficam mais à vontade para ocupar comunidades

  • sexta-feira, 7 de maio de 2021

Foto: CBNPolicial

Por Leonardo Sakamoto, jornalista, no facebook

Uma operação que termina com 24 civis e um policial mortos, trata uma comunidade com milhares de moradores como um campo de guerra inimigo e atinge até passageiros do metrô é um fracasso retumbante. Demonstra falta de inteligência do Estado, em todos os sentidos.

Por isso, a Chacina do Jacarezinho, perpetrada, nesta quinta (6), pelo governo do Rio de Janeiro, rapidamente tornou-se assunto na mídia internacional como mais um símbolo de nossa necropolítica. O Brasil é visto como o cemitério do mundo, em muitas dimensões diferentes.

Jair Bolsonaro é causa de muitas tragédias, como a sabotagem ao combate à covid-19 que causou centenas de milhares de mortes, mas também é consequência de uma sociedade que nunca colocou a dignidade dos mais vulneráveis como prioridade. O Brasil já executava sumariamente negros e pobres nas periferias e massacrava indígenas e camponeses na Amazônia antes deste governo e continuará depois que ele passar.

Não que sua passagem pelo comando do país não tenha empoderado determinados discursos que, antes, eram mais envergonhados, o que acaba por ajudar a normalizar chacinas. A coletiva à imprensa após o morticínio foi um exemplo disso, agindo como uma segunda etapa da tragédia. Se a primeira passou por cima da comunidade, a segunda atropelou a Constituição Federal.

"Não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminoso, homicida e traficante", afirmou o delegado Felipe Curi, do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE) ao falar que os 24 civis foram mortos em troca de tiros com agentes de segurança.

Sob essa visão, a Justiça passa a ser desnecessária. Porque a própria polícia, cuja função é investigar e prender quem comete crimes, também assume o papel de acusar, julgar e executar. Reforça a ideia de que o Brasil tem pena de morte sim, só não está detalhada no Código Penal.

"Eu queria deixar muito claro que o sangue desse policial que faleceu hoje em prol da sociedade de alguma forma está na mão dessas pessoas, dessas entidades ", afirmou o delegado Rodrigo Oliveira, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil, criticando o que chamou de "ativismo judicial" de ativistas e defensores de direitos civis.

Por conta da quantidade de mortes em comunidades pobres do Rio em operações policiais durante a pandemia, o Supremo Tribunal Federal limitou essas ações a situações excepcionais em junho do ano passado.

"Parte desse ativismo que de alguma forma orienta a sociedade numa determinada direção definitivamente não está do lado da Polícia Civil e da sociedade de bem. Os interesses deles são diversos, são outros", afirmou Oliveira.

Ele adota, de certa forma, duas estratégias bolsonaristas: a de afirmar que quem concorda com ele faz parte da "sociedade de bem", em detrimento ao inimigo, o mal, que é quem discorda dele. E a outra é acusar antes de ser acusado. Coloca o sangue do policial nas mãos dos críticos da ação antes que a sociedade coloque o sangue dos 25 nas mãos do poder público.

O policial André Frias poderia estar vivo, bem como os outros 24, caso as forças policiais no Brasil investissem no trabalho de inteligência. Isso poderia levar criminosos à Justiça e não ao cemitério, como reza a Constituição.

Como não temos um trabalho de inteligência eficaz, com integração das bases das polícias e cruzamento de dados de segurança pública, que torne possível cortar o fornecimento de armas ilegais, bloquear a movimentação financeira dos envolvidos, atingir os financiadores do crime organizado (que, não raro, moram em bairros de ricos) e localizar e isolar criminosos, a alternativa adotada é ir para a porrada, matando e morrendo.

Tudo isso alegra milicianos que ficam mais à vontade para ocupar comunidades.

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