60 socos em uma. A dor em todas. Uma apanhou e todas sangramos
A cena foi captada por uma câmera de elevador. Sessenta socos. Um corpo feminino sendo agredido com brutalidade, em sequência, sem pausa. Mas quem assiste ao vídeo precisa saber: os 60 socos não foram o começo. Foram o desfecho.
Por Thaís Cremasco, colunista, na Fórum
Quando uma mulher é espancada em público, todas sentimos o golpe. Mas antes do primeiro soco, houve o silêncio, o controle, o medo — e a omissão de um sistema que nos deixa morrer dentro de casa.
A cena foi captada por uma câmera de elevador. Sessenta socos. Um corpo feminino sendo agredido com brutalidade, em sequência, sem pausa. Mas quem assiste ao vídeo precisa saber: os 60 socos não foram o começo. Foram o desfecho.
Antes da violência física, houve uma guerra invisível — aquela que se travava nos silêncios, nas microviolências, no controle e na manipulação.
Essa guerra é antiga, cotidiana e mortal. E é travada contra nós, mulheres. Em todas as partes do mundo.
A única guerra universal, contínua e tolerada
A violência contra a mulher é a única guerra que atravessa todas as culturas, todas as religiões, todas as classes sociais e todos os países do mundo. Não há fronteira, idioma, fé ou renda que nos proteja dela. É, portanto, a guerra mais democrática do patriarcado porque atinge a todas, ainda que com pesos e consequências diferentes.
Mas essa guerra tem características únicas, que a tornam especialmente perversa.
Ela é universal, porque nenhuma sociedade, por mais desenvolvida que se diga, conseguiu erradicá-la.
É invisível, porque foi naturalizada, minimizada, escondida sob o manto do amor, da tradição ou da intimidade conjugal.
Tem um impacto geracional profundo, porque os filhos e filhas dessas violências crescem entre o medo e a reprodução do ciclo — transformando dor em legado.
É marcada por uma omissão estatal histórica, porque faltam políticas públicas, acolhimento digno, aplicação consistente das leis e vontade política de enfrentar o problema de frente.
E carrega a força da continuidade histórica, pois é alimentada pelo patriarcado, pelo racismo estrutural e por séculos de normalização do controle masculino sobre os corpos femininos.
Essa guerra não é um acidente, nem uma série de tragédias individuais.
Não é uma fatalidade: é um projeto.
Um projeto de dominação que tem endereço certo: o corpo da mulher e o espaço da sua intimidade.
É sobre desumanizar, desmobilizar e disciplinar mulheres — especialmente aquelas que ousam existir fora da norma.
O feminicídio é apenas o capítulo final de uma cartilha de controle que começa bem antes do primeiro tapa.
E o que a torna mais cruel é o fato de ser tolerada.
Ela não explode como as guerras convencionais. Ela se infiltra, se disfarça, se acomoda.
Se uma bomba explode, o mundo para.
Mas se uma mulher morre espancada por seu companheiro, tudo continua.
A casa — o campo de batalha do século XXI
Segundo o Anuário da Segurança Pública, 64% dos feminicídios no Brasil ocorrem dentro de casa, e em sua maioria, cometidos por companheiros ou ex-companheiros.
Mais de 63% das vítimas são mulheres negras, jovens, em idade produtiva — aquelas que o sistema desumaniza com mais facilidade.
No Brasil, o lar é o lugar mais perigoso para uma mulher.
É dentro de casa que somos isoladas, controladas, humilhadas — e muitas vezes, mortas.
E mesmo assim, esperam de nós silêncio, compreensão e resiliência. Se denunciamos cedo, nos chamam de exageradas. Se denunciamos depois, dizem que demoramos demais. Sempre é a nossa culpa.
A cultura da violência: antes do soco, vem o controle
O feminicídio não nasce do nada. Ele é o último ato de um enredo cuidadosamente arquitetado pelo patriarcado e executado com a cumplicidade da sociedade. Antes do sangue, vem o riso. Antes do soco, vem o controle.
Tudo começa com uma piada “sem maldade”, uma crítica “pro seu bem”, um comentário sobre sua roupa. Depois, vem a vigilância disfarçada de proteção: ele quer saber com quem você fala, aonde você vai, o que você posta. O ciúmes vem travestido de zelo. O isolamento, vendido como cuidado.
Aos poucos, ele vai tomando tudo de você seus horários, suas amizades, sua autonomia, sua autoestima. Até que, um dia, vêm os gritos. A humilhação. Os primeiros empurrões. O pedido de perdão. E o ciclo recomeça.
Até que reste o silêncio. O mais absoluto. O mais irreversível.
A violência contra a mulher não é aleatória. Ela é sistêmica, planejada e funcional dentro da lógica patriarcal.
A misoginia opera como uma ciência milenar do controle feminino: estuda nossos comportamentos, manipula nossas reações, antecipa nossos limites, neutraliza nossa autonomia.
Como advogada, vejo diariamente mulheres que resistem a denunciar não por fraqueza mas por estratégia de sobrevivência.
Porque sabem que, ao falar, serão colocadas no banco dos réus. O medo não é só do agressor, é do sistema.
Medo de não serem levadas a sério.
Medo de perderem os filhos.
Medo de serem ridicularizadas pela família, desacreditadas pelo Judiciário, culpadas pela sociedade.
A verdade é cruel e repetitiva: a mulher nunca denuncia na hora certa porque, para o sistema, ela está sempre errada.
Se fala cedo, é “exagero”.
Se fala tarde, é “conivência”.
Se permanece, é “fraqueza”.
Se reage, é “desequilíbrio”.
Não importa o que faça, o patriarcado tem sempre uma resposta pronta para nos invalidar.
Porque não basta matar uma mulher. É preciso desmoralizá-la antes.
E nisso, o sistema funciona.
Não há democracia onde as mulheres morrem
O feminicídio é o reflexo mais brutal de uma sociedade que ainda vê o corpo feminino como propriedade masculina.
É a ponta do iceberg de uma estrutura que desumaniza, silencia e pune mulheres que ousam viver, decidir, escolher.
Não há empoderamento possível se, ao fim do dia, a nossa vida ainda corre risco ao voltarmos para casa.
Não há igualdade de gênero enquanto o medo de morrer for parte da rotina feminina.
E não existe democracia real em um país que enterra suas mulheres por serem mulheres.
Romper o ciclo é urgente e é coletivo
Precisamos parar de exigir que mulheres escapem sozinhas de estruturas que foram feitas para mantê-las presas.
É dever do Estado oferecer proteção real, políticas públicas eficazes, aplicação da Lei Maria da Penha com perspectiva de gênero e raça, e investimento em prevenção.
Mas também é dever de todos nós familiares, vizinhos, profissionais do Direito, da saúde, da educação olhar com seriedade para os sinais. Acolher. Orientar. Denunciar. Apoiar.
Porque enquanto uma mulher for agredida, todas estaremos em risco.
E enquanto nos matarem, não haverá paz possível.
Não haverá justiça.
Não haverá futuro.
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