Valter Pomar e a entrevista de Wellington Dias à Veja
O dirigente petista mostra-se bem insatisfeito com a entrevista de Wellington Dias à Veja
Por Valter Pomar, professor e membro do Diretório Nacional do PT
Veja para alguns petistas é como Coca Cola: sabem que faz mal, mas não conseguem resistir. A mais recente vítima foi o governador Wellington Dias.
Na entrevista, Wellington lembra que “o Brasil tem 2,7% da população mundial e já alcançou mais de 13% do número de óbitos do mundo”.
Mas diz ter dúvida “se o objetivo era causar as mortes ou se tinha mesmo alguém que acreditava que a propagação do vírus era uma forma de se livrar rápido do problema”.
Wellington reconhece que “se houve mesmo incentivo à propagação do vírus para se livrar da pandemia, foi uma política genocida”. Mas defende “esperar o resultado da CPI”.
Se entendi direito o raciocínio, a dúvida estaria em saber se o genocídio é culposo ou doloso.
Talvez no fundo desta dúvida esteja o coração bondoso de Wellington, que consegue lembrar que teve uma “relação sempre respeitosa” com Bolsonaro quando conviveu com ele no Congresso.
Infelizmente, vai além: diz que Bolsonaro precisa “colocar o interesse do país acima das disputas políticas. Infelizmente, ele procura manter um tensionamento permanente. A disputa política fica sempre em primeiro plano e a pauta de interesse público em segundo”.
Que certa direita raciocine deste jeito, eu entendo: para eles, interessa estigmatizar a “disputa política”, a “luta de classes” e as “ideologias”, porque para eles interessa manter o status quo, que eles apresentam como se fosse o “interesse do país”.
Mas para nós de esquerda, raciocinar assim é um desastre, pois do que precisamos é exatamente convencer o povo a fazer disputa política, a diferenciar nossos interesses dos interesses da elite, a perceber que cada classe vê de maneira diferente o que é o “interesse público”.
No fundo do raciocínio de Wellington, está a crença de que vamos derrotar a política de “tensionamento permanente” adotada por Bolsonaro através do “diálogo”.
Textualmente ele diz que “temos uma situação tão grave no Brasil que devemos priorizar o diálogo. Lula se coloca como alternativa pela sua reconhecida capacidade de dialogar, ouvir e tolerar. Há a necessidade de alguém com experiência democrática, alguém empenhado em fortalecer as instituições que foram atingidas nesse período. Há a necessidade de criar uma política de pacificação dentro do país, aliada a um plano que possa fortalecer a economia, gerar emprego e renda”.
Pergunto: diálogo é bom, mas será suficiente? Não haverá resistências, interesses contrariados, setores irredutíveis?
Apesar da boa vontade de Wellington, a Veja não perdoa e lhe fez as perguntas de sempre sobre a corrupção.
O governador respondeu que “nós vamos defender o combate à corrupção, que ainda é grave no Brasil”; disse que “pagou e pagará qualquer um que cometer crime de corrupção em nossos governos. Quem cometeu, quem a Justiça comprovou que cometeu, foi expulso do PT”; disse também que não foi o PT, mas “pessoas do meu partido, em meio a 1,5 milhão de militantes, infelizmente, também foram para o descaminho”.
Sentindo o gosto de sangue, Veja pergunta quem foi para o descaminho, e Wellington cita o caso do “ex-ministro Palocci”, corrupto confesso apesar de ser “uma pessoa preparada, com capacidade técnica extraordinária”.
(ps. certamente Palocci era preparado e tinha capacidade técnica, mas usou essas qualidades em favor de uma política que interessava ao grande capital. A corrupção foi sua paga!)
Veja insiste e Wellington diz que “o ex-ministro José Dirceu foi julgado, condenado e cumpriu pena, mas ele sustenta que não participou de nenhuma ilegalidade”.
Ou seja: Veja adotou o mesmo script executado na entrevista com Gilberto Carvalho. E Wellington foi parar no mesmo lugar.
No tema da frente ampla, Wellington diz que não acredita na formação de uma frente ampla para as eleições de 2022. Mas faz uma análise positiva das alianças feitas entre 2003 e 2010. E alimenta a tese de que os problemas começaram quando Dilma foi à reeleição.
Textualmente: “Em 2014, havia a oportunidade de uma alternância, mas o Lula nunca sugeriu isso a ela. Foi aí que começaram os problemas”, pois “era um momento muito tenso e exigia uma capacidade de diálogo, de articulação, realmente muito elevada, e ela tinha essa dificuldade”.
E agrega: “Olhando para trás, acho que, se Lula tivesse sido candidato em 2014, creio que não teríamos enfrentado os problemas que enfrentamos”.
Ou seja: os “problemas” do golpe, da extrema direita, da ingerência dos Estados Unidos, da intervenção militar, do programa neoliberal da ponte para o futuro e tudo mais, teriam sido superados com “diálogo”.
E coerente com isto, Wellington diz que “não podemos banalizar o instrumento do impeachment. Ou existe uma prova muito concreta, robusta, ou temos de respeitar a soberania da vontade popular. No caso de Bolsonaro, na minha opinião, ainda não há uma comprovação que permita o impeachment. Não duvido que venha a surgir. Se tiver desvios, especialmente nesse caso da Covaxin, aí muda tudo. Se o remédio necessário for o impeachment, vamos usar. Mas não podemos levar o país a aventuras”.
Ou seja, “muda tudo” apenas se houver corrupção comprovada envolvendo pessoalmente o presidente. Todos os demais crimes cometidos pelo cavernícola não são suficientes para Wellington defender o impeachment de Bolsonaro.
Como se isto não bastasse, Wellington ainda fala positivamente de Aécio Neves. Sua declaração a respeito é tão insólita, que prefiro apenas reproduzir a pergunta e a resposta, que encerram a entrevista.
É verdade que o senhor chegou a cogitar a possibilidade de formar uma chapa com Aécio Neves em 2010?
Na época teve aquela dobradinha em Minas Gerais, de Lula e Aécio, o Lulécio. Esse diálogo foi aberto pela boa relação dele com o Lula, pela possibilidade de ele se filiar a um partido da nossa base e como um líder destacado, citado para ser candidato a presidente pelo campo político apoiado pelo Lula. Eu estava no segundo mandato de governador e meu nome era lembrado como alternativa para vice. Hoje eu brinco que ele perdeu a chance de ser presidente e ainda tirou a minha de ser vice.
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