Um país que não vacina professores, e sim atletas, não quer crescer

O menosprezo pela contaminação entre os professores é impressionante. Mostra o desprezo que esse sistema tem para com os profissionais da Educação

Foto: DivulgaçãoMinistro vacina atletas

Por Raphael Fagundes, naFórum 

As elites liberais brasileiras analisam a conjuntura do país tendo como ideal as grandes potências capitalistas mundiais. Em um devaneio utópico delirante, parecem acreditar que o Brasil possa seguir o exemplo destas potências para um dia se igualar a elas. A crítica destes grupos está baseada neste aspecto.

Sendo assim, não levam em consideração as condições do Brasil no sistema-mundo capitalista. Jamais irão afirmar que neste sistema as potências querem que elementos exploratórios (altamente lucrativos), que não são aceitos por suas populações, sejam implementados na periferia.

Deste modo, os projetos de destruição ambiental, de precarização da mão de obra, de introdução de produtos químicos na lavoura, estão relacionados a um projeto que visa baratear o máximo possível os produtos brasileiros, atendendo aos interesses de consumo externo e de produção dos empresários e latifúndios em território nacional.

Dentro desta lógica, o país prioriza alguns aspectos em detrimento do que realmente poderia levar ao seu desenvolvimento. A falta de investimento em educação é parte deste projeto imperialista. Pesquisas universitárias perderam financiamento, algumas instituições educacionais estão agonizando, como é o caso da UFRJ.

Muitas escolas continuam fechadas e, embora o risco de contaminação pela Covid-19 seja alto, em algumas há um movimento forte para o retorno das aulas presenciais. Mesmo com muitas escolas sem condições estruturais, há a iminência da reabertura.

A FIOCRUZ fez um estudo que chegou à conclusão de que o novo coronavírus é transmitido do adulto para a criança com maior facilidade que o oposto. Por conseguinte, a imprensa e os governantes encontraram argumentos científicos para a reabertura.

O menosprezo pela contaminação entre os professores é impressionante. Mostra o desprezo que esse sistema tem para com os profissionais da Educação. Na prefeitura do Rio de Janeiro houve escolas que exigiram a reunião de professores presenciais no final de e abril, em meio ao caos hospitalar.

Os professores foram retirados do grupo preferencial no processo de vacinação. Um absurdo, já que se propõe o retorno às aulas presenciais. A vacinação no Rio de Janeiro será por idade, abrangendo toda a população.

Enquanto isso, os jovens atletas que irão participar das Olimpíadas e os jovens jogadores de futebol que irão participar da Copa América serão agraciados com as duas doses da vacina Pfizer. Lógico que o esporte é um setor importante, porém é mais indispensável que a Educação? Será que o mesmo aconteceria nas nações desenvolvidas?

Não mesmo. O projeto de crescimento lá é outro. Para o centro do mundo crescer, as periferias precisam manter-se estagnadas. Este é o modelo econômico do sistema-mundo. O principal caminho para isto é desfalecer a Educação.

Para concluir, seria importante lembrar aqui do discurso do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, numa entrevista coletiva, quando anunciou a vacinação dos atletas: “Vamos vacinar nossos atletas olímpicos e as comissões técnicas para garantir que esses atletas possam desempenhar muito bem suas capacidades e trazer bastante medalhas”. Neste momento cabe a pergunta, ao se recusar a aplicar a vacina nos professores, tirando-os dos grupos prioritários, ao mesmo tempo propondo a reabertura das escolas, o governo (principalmente o do município do Rio de Janeiro) quer que estes profissionais desempenhem bem suas capacidades?

A Educação no Brasil sempre foi problemática e por isso muitos acreditam na crítica realizada pela direita. Para isso precisamos refletir com Michael Apple e reconhecer que “a existência de problemas não significa que as ‘soluções’ conservadoras sejam boas”. Essa questão da prioridade da vacina mostra claramente que a Educação continua sendo um setor preterido pelo governo brasileiro, hoje mais ainda pela direita que chegou ao poder, pois se dedica, como nunca antes na História deste país, em diminuir os investimentos na área.