Política

Respeito ao eleitor

Respeito ao eleitor

  • domingo, 17 de abril de 2016

Bernado Melo Franco, é jornalista e escreve para a Folha de São Paulo. Hoje ele vai ao cerne da discussão política do Brasil atual. Uma presidenta foi eleita por 54 milhões de pessoas e um casuísmo político pode botar fim a esta decisão dos brasileiros. Bernardo fala de democracia e o respeito que se deve ter a ela. Vamos ao texto.
O voto não é um detalhe Às vésperas da Copa de 1994, o técnico Carlos Alberto Parreira declarou que o gol era só um detalhe. A frase espantou os torcedores –afinal, o gol é o momento que mais importa no futebol. Apesar de Parreira, a seleção conquistou o tetracampeonato mundial. Na discussão do impeachment, os políticos têm falado muito em cargos, verbas, lealdades e traições. Poucos se lembram do eleitor, que expressou sua vontade nas urnas e agora vive num país paralisado pela disputa extemporânea de poder. Na democracia, o voto não é só um detalhe. Dilma Rousseff está na Presidência porque foi reeleita por 54.501.118 brasileiros em 2014. Como diz o comentarista, a regra é clara: governa quem recebe mais votos. A interrupção do mandato presidencial é uma punição mais grave que um cartão vermelho. Só deve ser aceita no jogo quando há prova clara de crime de responsabilidade. O impeachment não pode ser um atalho para chegar ao poder sem o voto popular. Nem por vices que desejam mudar de cadeira, nem por candidatos derrotados nas urnas. Governantes ruins devem ser enxotados pelo povo na eleição seguinte. Este era o caminho mais provável de Dilma e do PT, que cavaram juntos o buraco da recessão. Nos últimos tempos, passamos a ouvir que o país não pode esperar até 2018. “A economia não aguenta”, repetem os porta-vozes do impeachment. Curiosamente, eles não costumam perguntar se a democracia brasileira aguenta mais uma ruptura do calendário eleitoral. Seja qual for a decisão da Câmara hoje, um dos piores legados desta crise será a ideia de que o voto não basta. Os próximos presidentes assumirão sem a certeza de que ficarão quatro anos, como estabelece a Constituição. Quando o Congresso quiser, e a maioria do empresariado apoiar, o caminho para derrubar o governo estará aberto. Encontrar uma fundamentação legal, como as pedaladas, será só um detalhe. Bernardo Mello Franco, na Folha
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