O feminicídio é o caminho sem volta, antes dele, o percurso é marcado por muita dor

O feminicídio é o caminho sem volta, antes dele, o percurso é marcado por muita dor

Foto: GoogleFeminicídio
Feminicídio

Tipificar o crime do feminicídio foi uma conquista histórica frente a uma cultura machista e sexista. A lei é de 2015 e de lá pra cá deu voz a um silêncio que era ouvido, mas a sociedade fingia não escutar. Já são mais de 100 mulheres mortas em contexto de violência de gênero no nosso Estado desde então (108 até dezembro de 2018). Em 2019, já são nove casos registrados. Ainda lembro quando era criança, morávamos na zona Sul, as casas não eram separadas por muros. Uma vizinha sempre aparecia com hematomas no rosto, que tentava esconder. Um dia, brincando de esconde-esconde, escutamos barulhos estranhos e um bate-boca sem fim. Decidimos “curiar” pelas frestas da janela e presenciamos o horror que acontecia ali. Por que a vizinhança negligenciava? Por que ela ainda vivia com ele? A quem recorrer? Essas e outras perguntas ficaram sem respostas mas fizeram surgir reflexões para uma vida. Pesquisando mais sobre o tema, deparo-me com a campanha: “Se te causa dor, não é amor”, que tenta esclarecer como o ciclo da violência acontece. O feminicídio é apenas a ponta do iceberg, o caminho sem volta. Antes dele, o percurso é marcado por muita dor. A publicidade esclarece: “Mermã, ele não te bate, mas...faz você se sentir mal consigo mesma, faz você pensar que está louca, faz você se sentir culpada pelos erros, te humilha e desvaloriza continuamente, te afasta dos teus amigos e familiares”. Essas são marcas de relacionamentos abusivos e quantas de nós já fomos ou estamos sendo vítimas! O ciclo da violência começa assim: aumento de tensão (agressões verbais, ciúmes, ameaças, medo, abuso emocional) – ataque violento (agressões físicas ou sexuais graves, abuso e descontrole) – calmaria (arrependimento, desculpas, juras de amor, promessas de mudanças). Fiquemos atentas! A morte não acontece de uma hora pra outra. Ela acontece lentamente e, mesmo que possa ser evitada, deixa cicatrizes na alma e muita dor. Precisamos criar coragem para interromper esse ciclo de violência, antes que não haja mais nenhuma possibilidade. Saber o momento certo de abrir mão de um amor, por um amor que nunca pode faltar: o amor próprio. Lutemos em vida, pelas nossas vidas.