No caos da pandemia, sobra palanque onde falta competência
O vereador de Teresina, Dr. Lázaro defende a volta das atividades comerciais
Por Fabíola Lemos - Professora e Cientista Social
O vereador de Teresina, Dr. Lázaro (Patriotas) foi enfático ao defender que o comércio tem que retornar. "A tolerância já se esgotou", disse em uma entrevista.
Ainda que seja médico e tenha vivenciado o espaço acadêmico em seus debates, critérios e método científico, o vereador justifica: "eu acredito que o pico da curva de contágio já passou".
Tudo isso, no mesmo dia em que o número de mortes no Brasil, ultrapassava o da Espanha e Itália.
A forma com que se apela à obviedade para parecer convincente na disputa de ideias, é de um cinismo constrangedor.
Sintomático, em uma conjuntura onde a busca pelo controle da pandemia se dá no contra-fogo de uma polarização política.
A narrativa dicotômica e fatalista, faz crer que existe outra alternativa, que não seja a de enfrentar a pandemia, com toda a crise sanitária e econômica que já é uma realidade.
Dr. Lázaro que tão bem conhece as leis objetivas da natureza, resolveu fazer política e esquecer-se de que está diante de um contexto onde o poder elucidativo não está na falácia da tribuna, e sim, na realidade objetiva com toda a carga de frustrações, contratempos e perdas, que só a Ciência tem a sistemática para desvelar.
Na mesma frieza com que o presidente da república e expoentes do mundo empresarial afirmam que é inevitável perdermos milhares de vidas, a obviedade nos aponta a certeira perda nos rendimentos, ao indicar a política de isolamento social como solução mais viável.
Na cínica chantagem que nos obriga a escolher entre as "mortes de CNPJ" e a perda de vidas, há quem queira nos fazer crer que o problema é do povo e que, se já não bastasse o sacrifício legado pelas reformas trabalhista e previdenciária, esse terá que agora, oferecer a própria vida pra salvar os lucros do patrão que, ao contrair o vírus, foge para os melhores hospitais de São Paulo e do exterior nos seus jatinhos-UTI.
Cabe aos gestores públicos e ao parlamento, efrentarem o desafio dos tempos difíceis que estão por vir, efetivando políticas que evitem a quebra na cadeia produtiva e a crise no abastecimento, minimizando as possíveis falências e demissões.
Mas ao contrário, o que se vê em meio ao caos, é o Presidente da República fingindo que não é com ele, organizando churrasquinho no final de semana e procurando escapar do vexame da incompetência, insultando jornalistas.
Uma Secretária de Cultura, zombando da tragédia, dizendo que não se deve falar em morte pois "é muito pesado".
Em Teresina, o médico vereador, também "faz a egípcia" e exige que se volte à normalidade, como se tudo estivesse resolvido.
Pagamos muito caro por mandatos com tantos assessores. É pertinente esperarmos soluções responsáveis, nos momentos que mais demandam trabalho e preparo técnico.
O que "já se esgotou" mesmo, Dr. Lázaro, foi a paciência do povo ao ter que assistir a esse festival de oportunismo e narrativas falaciosas onde falta honestidade, competência e coragem pra enfrentar esse momento de crise.
OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.
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