Globo: os aprendizes de feiticeiro que colocaram o monstro nas ruas

No início foi o gozo, o exercício do jornalismo sem limites, a exposição do poder extraordinário de colocar multidões nas ruas

Foto: GGNGlobo criou o monstro

Por Luis Nassif, jornalista, no GGN

No início foi o gozo, o exercício do jornalismo sem limites, a exposição do poder extraordinário de colocar multidões nas ruas fantasiadas de verde e amarelo. Convocam-se multidões por todo o país, usavam-se politicamente as estatísticas manipuladas pela Polícia Militar, que tratava seletivamente números e a distribuição de pancadas pelos manifestantes: à esquerda, pau; à direitam abraços.

Não se tratava de uma mídia a reboque, como foi a americana no macarthismo. Era uma mídia comandando as multidões, varrendo para baixo dos tapetes verde-amarelos da Paulista sua incapacidade de enfrentar os novos tempos e encarar a invasão estrangeira, não a de bolivarianos, castristas e o escambau, mas a dos novos veículos que surgiam nos rastros das redes sociais.

Foi bom enquanto durou, pá! Empresas jornalísticas, por algum tempo, tornaram-se mais relevantes que partidos políticos, conseguiram uma influência que não tinham desde os tempos do impeachment de Collor. Um título de reportagem já servia de álibi para prisões arbitrárias. O esgoto jorrado das manchetes espalhava-se por todos os poros da República. Faziam dobradinha com procuradores inescrupulosos, que  passavam alguma suspeita, que era transformada em manchete, com fontes em off, permitindo ao procurador parceiro consumar prisões, humilhações, relevância.

A mídia conseguiu transformar o país em um valhacouto de dedos duros. Nos Estados Unidos, seu modelo de atuação, a Fox News, enfrentava os anticorpos da imprensa mais séria, New York Times, Washington Post, CNN. Por aqui, foi uma imensa Fox News, com todos os veículos repetindo os mesmos mantras e estimulando o ódio e a delação.

Os alvos passavam a ser ameaçados nas ruas, o mero uso de uma camisa vermelha podia resultar em agressão. As personalidades mais doentias da sociedade, dos salões da Vila Olimpia aos comendadores de periferia, tornaram-se protagonistas políticos, estimulados pela brava mídia brasileira.

Ignorantes até a medula, sem noção de história, sequer da história recente do país, os herdeiros colocaram a besta nas ruas, julgando que manteriam para sempre o controle sobre ela. 

A besta gerou Bolsonaro, que assumiu o controle da besta através de algoritmos nas redes sociais.

Ontem houve manifestações pró-Bolsonaro por todo o país. A imprensa encolheu, não ousou estimativas de quantidade de pessoas. Nos editoriais defendiam a democracia fraturada. Colunistas que ajudaram a espalhar o ódio se tornaram mensageiros da paz, enquanto que zumbis sem máscara e sem cérebro invadiam as avenidas.

Agora, o país se volta para a vítima maior desse período de trevas – o ex-presidente Lula – esperando que ajude na operação de salvamento de um país destruído pela falência da informação.