Feminicídio: "amanhã poderá ser eu ou outra companheira"

Mulheres negras morrem todo dia à margem dessa mesma sociedade e cadê nossa solidariedade?

Foto: Arquivo pessoalTeônia Pereira
Teônia Pereira

Por Teônia Pereira, estudante

O que a lei te assegura? Você, como mulher, é assegurada por quem? Estado, família, por si mesmo? Ou por ninguém?

Tivemos que engolir, mais uma morte. Sim, engolir. As estatísticas não nos permitem vivenciar nem o luto e cabe a nós, engolir. A vítima era uma mulher que ocupava um espaço social tão diferente do meu. Era de classe média, médica e enfim, já entendemos o contexto que quero me referir. A bolha social que ocupava não a deixou imune do último estágio da violência doméstica.

A violência, que vai além das classes, é um problema estrutural. Foi mais uma vítima do feminicídio, infelizmente. Não tive contato algum com a vítima, nunca a vi, não sei seu posicionamento político, mas é incrível como dói e machuca profundamente. E não importa saber, ela foi vítima de uma sociedade machista que dá sustentabilidade ao patriarcado. E nos faz pensar. Reflito uma infeliz conclusão: amanhã poderá ser eu ou outra companheira. 

Como ficará a filha da vítima? Irão reproduzir qual narrativa para justificar o ato? Se é que o ato tem explicação que não seja a problemática estrutural do patriarcado. 

Pude ler alguns comentários e a maioria tentava culpabilizar a vítima por estar seguindo sua vida após a separação. Fico me questionando, quando o homem no auge dos seus 50 anos, recém separado, busca por mulheres bem mais jovens para justificar a sua virilidade masculina, é colocado como natural. E uma observação, a maioria das mulheres que, por algum motivo, optaram por estar na relação, são chamadas de aproveitadoras dos pobres homens. Coitadinhos, né? #sqn

Enquanto uma mulher recém divorciada, no auge de sua vida, não pôde optar por estar ao lado de outrem. É crime dividir a felicidade de viver? Ou a desistência de uma mulher não tem validade?

O machismo é tão profundo que nos faz reproduzir e nos julgar. A luta é constante! Mas fica outra questão. Mulheres negras morrem todo dia à margem dessa mesma sociedade e cadê nossa solidariedade?