Como explicar beijo de vítima em ex-namorado que tentou matá-la com 5 tiros?

Para psicóloga,caso escancara violência psicológica sobre vítimas

Foto: ÁLVARO PEGORARO/FOLHA DO MATEUm beijo após a condenação
Um beijo após a condenação

Por Giovanna Galvani, na CartaCapital

A foto é de um casal se beijando, mas deixa de ser comum rapidamente pela história por trás dela: o homem, Lisandro Rafael Posselt, é julgado por tentativa de feminicídio contra a mulher que o beija, Micheli Schlosser. Ela pediu ao júri se podia beijá-lo porque, segundo ela, os cinco tiros que recebeu já estavam “perdoados”.

O caso, que aconteceu na última terça-feira 28 no Rio Grande do Sul, rodou a internet e colecionou reações condenatórias contra a mulher – que, de alvo de cinco tiros do ex-namorado, virou a culpada pelo crime que sofreu, o que escancara a incompreensão dos impactos psicológicos da violência contra a mulher.

“Pode ser fruto de um discurso mais conservador, mas as pessoas são muito ignorantes sobre os impactos de um relacionamento abusivo e da violência doméstica sobre a vítima. Ela quase morreu e, mesmo assim, a responsabilidade é dela”, diz a psicóloga Laís Nicolodi, mestranda em Psicologia e Assuntos da Mulher na Universidade de São Paulo.

O crime aconteceu em agosto de 2019, quando, após uma briga, João procurou a namorada com uma arma para resolver o conflito. De acordo com relatos de amigos da vítima, ela estava em uma praça no momento dos disparos. Micheli foi atingida cinco vezes, uma na cabeça e quatro nas costas – todas as balas ainda estão alojadas no corpo da vítima.

Em entrevista concedida ao jornal Gazeta do Sul, Micheli explicou que “provocou” o namorado dizendo que iria denunciá-lo por agressão. Segundo ela, ele nunca havia a agredido, mas isso foi o suficiente para quase matá-la.

“A gente namorou por cerca de um ano e meio. Brigamos por causa de conversas que eu peguei no telefone celular dele. Daí discutimos, eu provoquei muito ele naquele dia e por isso ele disparou”, disse.

Para Nicolodi, é impossível afirmar qualquer diagnóstico em relação à vítima, mas há certos padrões no caso que chamam a atenção para a maneira que muitas mulheres lidam com a agressão psicológica e física: tentando proteger o algoz.

“É impossível emitir qualquer diagnóstico sem antes ter um contato com a pessoa, nenhum profissional pode fazer isso. Mas existem algumas variáveis culturais do caso que tangenciam muitas mulheres. Quando falam de Síndrome de Estocolmo, discutem um padrão de funcionamento comum de aparecer em casos de vítima de violência de relacionamento abusivo”, explica a psicóloga.

A chamada Síndrome de Estocolmo é usualmente definida como quando uma pessoa se apaixona por seu controlador ou agressor. No caso de abusos em relacionamentos amorosos, Nicolodi explica que a necessidade de proteger um namorado vem de uma carga psicológica intensa.

“É um nível de manipulação psicológica tão intensa que ela entende que deve tentar proteger o agressor. Ou seja, ele ainda exerce tamanho poder sobre a vítima que, mesmo depois de tentar matá-la, ela ainda funciona para obedecê-lo”, analisa a psicóloga.

No entanto, xingar a vítima de “burra” ou achar que ela está pedindo para ser agredida novamente, como foi comum nas redes sociais, acaba por jogar ainda mais culpa e pressão em cima da mulher. “São narrativas muito individualizadoras, dando pano para um discurso conservador que entende que as mulheres são as culpadas do relacionamento. No caso, elas são vítimas”, define Nicolodi.

“A culpabilização da vítima é bastante comum e afeta as mulheres de diferentes formas. Quando a mulher apresenta a denúncia e volta atrás, quando fala que o parceiro fez coisas e depois diz que ela que provocou, ou que “estava pedindo por isso”, ou até em formas mais absurdas como essa, quando há uma agressão explícita e ela agiu dessa forma porque ela estava ‘errada'”, diz a psicóloga.

O apoio para superar uma situação de violência doméstica, diz Lais, depende de uma rede de apoio de pessoas confiáveis, suporte psicológico e, essencialmente, a denúncia. No Brasil, mulheres podem denunciar violência doméstica pelo Disque 100 ou Ligue 180, 24h, em todos os dias da semana.