Ciro Gomes e seu dilema em relação ao PT

O ex-ministro e ex-governador do Ceará quer ganhar espaço com os antipetistas

Foto: Google ImagensDesagregando a esquerda, Ciro não vai a lugar
Desagregando a esquerda, Ciro não vai a lugar

Quando o ex-ministro e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, fala, o faz com contundência. Isso ninguém pode negar. Às vezes acerta, às vezes erra. Na maioria, acerta. Mas não se pode desprezar uma das vozes mais cortantes, fundamentadas e contextualizadas da esquerda. Ciro é um dos políticos com maior poder de desconstrução do governo Bolsonaro, um forte elemento de desidratação das bases do mito fabricado, na medida em que seu discurso duro e lógico tem grande penetração em setores da classe média, formadora de opinião.

O ex-ministro não tem o mesmo carisma do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que governou o País duas vezes e conseguiu resultados econômicos e sociais expressivos, e por isso é a maior referência da esquerda. Mas, apesar de ter fracassado nas eleições presidenciais de 2018, Ciro pode se transformar num nome viável, em 2022, já que, se por um lado não carrega o fardo do antipetismo, por outro, é teoricamente beneficiário do desgaste tanto do presidente Jair Bolsonaro quanto do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.

Tudo leva a crer que o distanciamento dele em relação a Lula não seja apenas uma questão de mágoa ou ressentimento, mas, um gesto calculado, uma estratégia na qual, ao bater no petista, se exime do sentimento de ódio nutrido contra o PT. O ex-ministro quereria se descolar do rótulo de corrupção aplicado ao PT, o que, teoricamente, poderia atrair para seu projeto de poder parte considerável do eleitorado arrependido do bolsonarismo. Porém, seu desafio é se tornar competitivo a ponto de disputar um hipotético segundo turno.

O ônus de atacar o PT

Há um evidente ônus de não ser visto com simpatia pelos petistas ou não contar com qualquer possibilidade de receber o apoio dos eleitores que votaram nos candidatos do PT, que ainda é o maior partido, tendo a maior bancada na Câmara dos Deputados e quatro governadores. Ainda que Lula não seja candidato ao Palácio do Planalto, em 2022, sua agremiação tende a apresentar uma candidatura em condições de ao menos chegar ao segundo turno, até porque o esvaziamento de Bolsonaro poderá se confirmar, até lá.

Na esteira de um governo desastroso, abalado por permanente crise política e institucional, por opção do próprio núcleo duro bolsonarista, sacudido por escândalos de corrupção envolvendo os filhos Flávio, Carlos e Eduardo, o presidente não sabe nem se consegue terminar seu mandato. Muito menos se será candidato à reeleição com alguma chance de vitória na próxima disputa presidencial. E esse contexto de queda contínua da popularidade de Bolsonaro pode favorecer a esquerda, apesar de todo o antipetismo, do lavajatismo, etc.

Ciro Gomes presta relevantes serviços ao País, ao denunciar, com a dureza e coragem que lhe são peculiares, os desmandos do atual governo, e apontar os supostos crimes cometidos, no passado e no presente, pelo clã e seu grupo. Mas isso pode não ser o suficiente para conseguir o reconhecimento eleitoral que espera. Há, finalmente, o imperativo de agregar, articular, o máximo possível, e não será fragmentando as esquerdas, por meio dos ataques ao PT, que ele alcançará a densidade necessária para realizar seu projeto de ser presidente.