Cinco meses após mortes de Bruno e Dom, Vale do Javari está a um passo de novos assassinatos

Pescador se apresentou como cúmplice das mortes e ameaçou tirar a vida de liderança Kanamari: "você será a próxima"

Foto: João Laet/AFPIndígenas
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A Associação dos Kanamari do Vale do Javari (Akavaja) denunciou nesta semana mais um ataque violento a indígenas do Vale do Javari, onde o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram assassinados em junho desde ano.

A Akavaja, que integra a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), descreveu em nota um episódio de terror no qual uma liderança indígena mulher é ameaçada de morte sob a mira de uma arma, na frente de um grupo composto por adultos e crianças, que navegava pelo rio Itacoaí. 

Na ocasião, um pescador relatou ser da mesma "equipe" que matou Bruno e Dom e prometeu assassinar todas as lideranças indígenas que se opõem à presença dos invasores, que estão organizados em quadrilhas armadas. 

O alerta vem do Observatório dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (Opi), organização fundada por Bruno Pereira. A entidade diz que o risco de novas mortes é concreto e denuncia que a prisão dos autores das mortes de Bruno e Dom não foi suficiente para por fim à violência. 

"A situação vivida pelos Kanamari demonstra que as investigações dos assassinatos de Bruno e Dom não podem ser consideradas encerradas enquanto a organização criminosa que participou dos crimes permanecer atuando na região", escreveu o Opi.

No comunicado, os Kanamari questionam: "essa situação foi mais uma que aconteceu aqui, mesmo após os terríveis assassinatos de nossos irmãos e parceiros, Bruno e Dom, nada mudou e nos perguntamos: quantos dos nossos iremos perder nesta guerra?".

Entenda o caso

No dia 9 de novembro, por volta de 9h30, cerca de 30 indígenas Kanamari, a maioria crianças e mulheres, voltavam da aldeia Massapê, onde organizavam o encontro de lideranças da Univaja, quando uma das embarcações foi interceptada por barcos cheios de pescadores ilegais. 

Armados, eles tentaram comprar o silêncio das lideranças, oferecendo em troca tracajás - uma espécie de tartaruga -  de origem ilegal. Uma liderança Kanamari mulher interveio e questionou por que o grupo insistia em saquear os recursos ilegais de usufruto exclusivo dos indígenas. 

Com uma arma apontada para o peito, a líder Kanamari ouviu de um pescador que as mortes no Vale do Javari não iriam cessar até que todas as lideranças fossem assassinadas. E que ela, uma das principais líderes do seu povo, estava marcada para morrer. 

"Vou tirar a máscara para você ver meu rosto e te avisar que é por conta de atitudes assim que Bruno e Dom foram mortos pela nossa equipe. E você será a próxima. Só não te matarei agora porque estamos na presença de muitas crianças", disse o agressor, segundo carta divulgada pela Akavaja. 

Ao deixar o local, os invasores cortaram a fiação de um dos motores dos barcos ocupados pelos indígenas. Na sequência, dispararam contra as canoas dos Kanamari, perfurando um dos tambores de gasolina levados pela embarcação. 

"Queremos ajuda"

A associação dos Kanamari afirma que viver sob a mira dos invasores virou rotina e diz temer também pela segurança dos indígenas isolados, aqueles que têm contatos pouco significativos ou frequentes com a sociedade não indígena.

O povo indígena encerra o comunicado dizendo que "esta carta é um pedido de ajuda. Queremos ajuda, pois queremos viver. Toda a vida que habita a floresta é importante e defenderemos nossos irmãos e irmãs sempre. Seguiremos fortes até o fim".  

Impunidade gera violência, diz Opi

O Opi chama a atenção para o fato de um dos pescadores ter retirado a máscara e se identificado como autor das mortes de Bruno e Dom. As ameaças foram feitas "com tal certeza de impunidade, que [os pescadores] se implicaram voluntariamente nos crimes de junho de 2022 [contra Bruno e Dom]", diz o Opi. 

Segundo a entidade, as investigações precisam do Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal (PF) para "desbaratar, de uma vez por todas, a organização criminosa que assola o Javari".

"A Força Nacional precisa ter seu efetivo reforçado e não pode ficar estacionada na base de Proteção Etnoambiental Itui-Itaquaí, precisa patrulhar a região e, com o apoio de outros órgãos, fiscalizar os inúmeros lagos e garantir a segurança dos indígenas e servidores públicos que por ali transitam", complementa a organização formada por indígenas e indigenistas. 

OAB se manifesta 

Em nota a Ordem dos Advogados do Brasil do Amazonas (OAB-AM) repudiou o caso e prestou solidariedade aos indígenas vítimas da ameaça. A OAB afirmou a distância de grandes centros urbanos dificulta o acesso das autoridades ao Vale do Javari, o que fortalece a presença de invasores. 

"Os brasileiros que habitam o interior da floresta são igualmente legitimados das garantias constitucionais. Portanto, toda ameaça à existência, isto é, à vida, à cultura, à religião, e o meio ambiente equilibrado, deve ser combatido com a higidez que exige o caso concreto".  

Com informações do Brasil de Fato

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