Antes de 64, também diziam não temer golpe, diz Frei Betto
Enquanto o presidente sobe o tom no discurso golpista, Frei Betto aponta que manifestações são “o recurso que temos para salvar a democracia”

Em sua coluna na Folha, Frei Betto lembrou que antes do golpe militar de 1964, líderes da esquerda também diziam não temer a ruptura institucional.
“Lembro-me do Brasil às vésperas do golpe de 1964, que implantou 21 anos de ditadura militar. Líderes da esquerda, na qual eu militava via movimento estudantil, diziam não temer golpe, as instituições democráticas eram sólidas, o presidente Jango contava com forte respaldo militar contrário à violação da Constituição”, conta.
Diante das ameaças golpistas de Jair Bolsonaro e membros do alto escalão das Forças Armadas, ele prevê o mesmo cenário:
“Agora ouço o mesmo discurso de solidez das instituições democráticas e de falta de condições conjunturais para uma volta à ditadura, inclusive de vozes da direita. Contudo, nenhum militar da ativa ousou discordar da ameaça golpista do comandante da Aeronáutica. Nenhum jamais se manifestou perante as repetidas bravatas golpistas de Bolsonaro. E, a 8 de julho, o ministro da Defesa, que comanda as três Armas, general Braga Netto, teria comunicado ao presidente da Câmara dos Deputados que ‘se não houver voto impresso e auditável em 2022, não haverá eleições’. No mesmo dia, Bolsonaro declarou em público: ‘Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições’. O presidente teme que o Parlamento rejeite a emenda constitucional que visa a permitir o voto impresso”.
“Autoridades civis receberam as manifestações golpistas como ‘blefe’, na opinião de um ministro do Supremo que não quis se identificar. Mas, repito, onde há fumaça, há fogo. É preocupante o ensurdecedor silêncio dos militares da ativa. Nenhum ousa discordar”, prossegue.
Enquanto o presidente sobe o tom no discurso golpista, Frei Betto aponta que manifestações são “o recurso que temos para salvar a democracia”:
“O povo brasileiro tem ocupado as ruas em massivas manifestações contrárias ao governo Bolsonaro. Este é o recurso que temos para salvar a democracia. Mas, se os militares optarem pelo golpe, institucionalizando Bolsonaro como ditador, basta rever o passado entre 1964 e 1985 para se ter ideia do futuro que nos aguarda”, finaliza.
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