A pandemia afeta o fluxo de consumidores no comércio, mesmo sem isolamento: ninguém quer morrer

Comerciantes não entenderam ainda a gravidade do tema e forçam a reabertura do comércio

Foto: JTNews
"Comerciantes" de Teresina protestam contra o isolamento social

 


O professor Luis Felipe Miguel leciona na UnB e tem textos frequentes no facebook. Hoje, ele escreveu sobre a reabertura do comércio no Distrito Federal. Empresários desesperados pela crise financeira, sem receber ajuda do governo federal, forçam governos estaduais a quebrarem o isolamento social permitindo a reabertura do comerico. Mas, comércio reaberto não é sinal de faturamento e fim da crise, usando o linguajar popular, "o buraco é mais embaixo". Aqui em Teresina, nesta semana, tivemos comerciantes protestando. No caso da capital piauense pesou mais o interesse político do que a crise que os reais homens de negócios da capital (não os da manifestação) estão verdadeiramente enfrentando. Vivemos uma pandemia. Sendo redundante, o problema é mundial. O povo entendeu isso e, mesmo com os governadores relaxando medidas de isolamento, a população não voltará a circular como antes. Ninguém quer morrer. Para a normalidade voltar é preciso se controlar a doença (diminuição da curva de contágio). Relaxar medidas restritivas é esmurrar ponta de faca.

Por Luis Felipe Miguel, no facebook 

O Distrito Federal instituiu a quarentena cedo, ainda na primeira quinzena de março. Até agora, conseguiu preservar a capacidade de atendimento da sua rede hospitalar, que recebe também grande procura de pacientes das cidades do entorno.

Os casos, no entanto, vêm aumentando muito. Em poucas semanas, passamos de uma média de uma morte diária pela covid-19 para oito ou nove. Na contra entram só os residentes do DF. Do entorno, está morrendo outro tanto.

Pois é na curva ascendente que, pressionado por parte do comércio e pelo governo federal, o governo local decidiu relaxar a quarentena. Até shoppings foram reabertos.

Muitos lojistas percebem que vão quebrar mesmo assim. A pandemia afeta seriamente o fluxo de consumidores, mesmo sem medidas de isolamento social compulsório.

Agora bares e restaurantes pressionam pela reabertura. Alegam que a crise no setor é grande e que o auxílio prometido pelo governo federal às pequenas empresas não chega a eles.

Essa é a questão. Seria necessário exigir o apoio que permitisse à empresa sobreviver, garantindo o emprego dos funcionários. E também uma regulação emergencial sobre outros itens, por exemplo suspendendo a cobrança de aluguéis dos negócios fechados, enquanto a crise durar.

Como o governo federal é aliado do vírus, fica mais fácil pressionar o GDF pela reabertura. Mas é um caminho suicida. Coloca funcionários e clientes em risco e em grande parte dos casos não permitirá escapar da falência.

Segundo o sindicato das empresas, mais de 6 mil pessoas já foram demitidas e quase 400 estabelecimentos fecharam desde o início da pandemia.

O mais famoso, entre os que fecharam, é o Piantella, que era o restaurante preferido de Ulysses Guimarães. Mas já fazia tempo que vinha cambaleando.

Na última fase, o restaurante tinha as paredes tomadas por fotos de Orlando Brito, lenda viva do fotojornalismo político. Eram fotos que retratavam os donos do poder, do final da ditadura militar até hoje.

Passou um tempo. Alguns clientes reclamaram (os restaurantes em Brasília costumam ser muito mal frequentados) e retiraram das paredes todas as fotos que incluíam Lula ou Dilma. Ficaram Figueiredo, FHC, Moro, Temer, Bolsonaro...

Desde então parei de frequentar o Piantella. Mas lamento pelo pessoal que trabalhava lá, muitos há décadas.