Doutor em Antropologia

Arnaldo Eugênio

Doutor em Antropologia

Sincericídio político

Foto: WhatsAppJosé Maria Monção
José Maria Monção

 


Em recente convenção partidária na cidade de Cocal (da estação), no Piauí, o ex-prefeito José Maria Monção protagonizou um sincericídio político ao dizer a verdade sem pensar, sem limites, sem ter em mente o que a população ver, e sente. Na vida, como na política e no amor, o ideal seria utilizar a verdade para falar e a sinceridade para construir.
Circunvalado por aliados políticos e com o objetivo de desmoralizar o atual gestor, o ex-prefeito de Cocal deu uma de Robin Hood – é um herói mítico inglês, um fora-da-lei que roubava da nobreza para dar aos pobres –, afirmando que o "Político que rouba é para o povo, roubar pra si é difícil" – um sincericídio. Ou seja, para ele, na política, trapacear é permitido, cujo resultado é desanimador: os políticos trapaceiam o povo.

Como um Robin Hood tupiniquim, o ex-prefeito de Cocal entende a política como a arte da trapaça, onde a maioria dos políticos roubam para o povo e a minoria rouba para si. Logo, todos os políticos roubam a população. Assim, o castigo dos bons que não fazem da política uma arte da trapaça é serem roubados pelos maus que estão viciados em pilhar o erário.
Primeiro, o sincericídio político é uma navalha de duas lâminas afiadas, cujo manuseio incorreto gera um suicídio político. No caso, se o ex-prefeito quis se mostrar como um político sincericida para a população de Cocal e um bravo guerreiro aos seus aliados políticos, colocou ambos numa situação vexatória. Pois, o riso dos seus asseclas foi um gesto inconsciente de aprovação e o silêncio dos seus aliados presentes jogaram todos no mesmo balaio político: “políticos que roubam”. 

Segundo, na busca de deleitar os seus correligionários, o ex-prefeito colocou os convidados numa ciranda política constrangedora, pois os que riram e os que contemporizaram saíram da convenção como políticos veteranos que roubam o povo na condição de gestores públicos. 

Considerando que estamos numa cruzada histórica contra a corrupção endêmica no Brasil, a afirmação do ex-prefeito é um acinte à consciência política do eleitor brasileiro. Para Platão (428/427 – 348/347), “a punição que os bons sofrem, quando se recusam a agir, é viver sob o governo dos maus".

Como um anfitrião distraído, para além de uma piada de extremo mal gosto, a fala do ex-prefeito José Maria Monção lhe colocou no topo de uma posição política desagradável e desconcertante quanto a confiabilidade do eleitorado de Cocal, bem como jogou luzes de LED nas suspeições sobre as cabeças de todos os seus aliados presentes.

O sincericídio do ex-prefeito de Cocal revela uma possível rede de práticas políticas poucos republicanas, que servem de estímulo para aumentar o descrédito na política e nos gestores públicos que rouba tanto para o povo quanto para si. Na prática, ele afirma que existe o uso das competências legisladas de um governo para fins privados ilegítimos: corrupção política.

A corrupção política se caracteriza quando governantes, servidores públicos e agentes privados se apropriam ilegalmente do poder político e financeiro de órgãos ou agências governamentais, com o objetivo de auferir renda pública ou privada de forma criminosa para si ou para determinados indivíduos e grupos (do povo) vinculados por quaisquer tipos de interesse comum e antidemocrático.

Segundo Ernest Renan (1823 – 1892), “para a política o homem é um meio; para a moral é um fim. A revolução do futuro será o triunfo da moral sobre a política”. Uma política feita com homens que roubam para o povo ou para si transformam a riqueza de um povo numa nação de miseráveis.

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.

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