Doutor em Antropologia

Arnaldo Eugênio

Doutor em Antropologia

Os mercadores do caos

Foto: Agência BrasilCompras

Co-autoria do artigo: Leonardo Andrade, advogado especialista 

Enquanto milhares de brasileiros fazem o isolamento social e já morreram mais de 40 mil pessoas, nas alcovas palacianas, centenas de representantes políticos buscam meios de se locupletar às custas do erário. Indiferentes à dor dos familiares pelas perdas de seus entes queridos, sem velá-los ritualisticamente, uma elite política e seus asseclas rapinam o “ouro do povo”, valendo-se da ideologia da “terra arrasada”, para justificar os gastos e abusos econômicos, travestidos de medidas emergenciais que dispensam licitações públicas.

Historicamente, o conceito de “terra arrasada” nasce da técnica militar em que uma nação invadida destrói seus próprios recursos com a finalidade de impedir que os invasores possam usufruir deles. Diz-se que a China foi a primeira nação a valer-se desta técnica (VINCENTINO, 2019), destruindo suas colheitas, para que os invasores não se aproveitassem, negando-lhes alimentos e, com isso, dificultando o seu avanço.

A Rússia usou a técnica durante as invasões Napoleônicas, ocorridas entre os anos de 1803 e 1815, e durante as incursões de Hitler, ocorridas em 1941. Também foi utilizada pelo duque de Wellington (OVERY, 1997), na Terceira Invasão Francesa (1810 –1811).

Com a pandemia de coronavírus existem diversos relatos de desvios de recursos públicos destinados à saúde. Ou seja, muitos gestores públicos estariam se utilizando da ideologia ou tática da “terra arrasada”, para enriquecimento ilícito e caixa de campanha eleitoral, através da dispensa de licitações na aquisição de insumos à prevenção e combate ao COVID-19.

Usando a pandemia de coronavírus como justificativa, muitos gestores públicos têm sido acusados de pilharem os recursos públicos e sabotarem o Estado por meio de endividamentos públicos – empréstimos milionários, saques de contas públicas, montagens de hospitais de campanha, compras emergenciais de veículos etc. –, com anuência de uma parte significativa de representantes dos órgãos públicos responsáveis pela fiscalização, que integram uma elite social, econômica, religiosa e política, exercendo forte controle sobre uma sociedade sem qualquer educação fiscal.

Num contexto de pandemia com corrupção, a ideologia da “terra arrasada” – ou seja, “do quando pior melhor” –, se aplica às instituições públicas, que são controladas por classes dominantes, que decidem ou cujos interesses influem fortemente sobre decisões políticas, econômicas, culturais etc. Onde os próprios interesses e concepções, se impõe às organizações públicas, em detrimento da maioria dos munícipes (DOGAN, 2003).

Na pandemia de coronavírus, muitos gestores públicos têm se utilizado da decretação do “estado de calamidade” como estratégia política para aplicarem a ideologia de usurpação da “terra arrasada” numa suposta “guerra contra o Coronavírus”. Para tanto, usam táticas de viés economicistas como o incentivo à flexibilização do isolamento social, o medo social, o negacionismo, o blefe profilático, a relativização das mortes e o nazifascismo genocida.

Sem preocupações com a mancha fúnebre que avança pelo país, muitos gestores extrapolam, intencionalmente, no superfaturamento de contratações sem os processos licitatórios, pensando nas eleições municipais de 2020. Assim, o coronavírus só não é mais devastador do que a voracidade do “corruptavírus”.

Portanto, não é plausível que a ganância de corruptos se sobreponha à necessidade da maioria, ignore as leis e as mortes, destrua a nossa capacidade de se indignar e de resistir à corrupção.

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.