Doutor em Antropologia

Arnaldo Eugênio

Doutor em Antropologia

Mandetta é um falso herói, sucumbiu a acordos, para se segurar no poder, e agora é apenas figura decorativa

Foto: NDLuis Henrique Mandetta
Luis Henrique Mandetta


No mundo da política, no caso do Brasil, aqueles que fizeram uma carreira apadrinhada e os falsos heróis nacionais sucumbem a acordos políticos, para se segurarem na estrutura estatal, mesmo se submetendo a condição decorativa. Por exemplo, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta – no governo do "cético-chefe", visto como paladino da racionalidade e determinação no combate ao novo coronavírus - para se manter no cargo e não ser humilhado em público teve que seletivizar a ciência, prometeu relativizar o isolamento social e mendigou blindagem da ala militar bolsonarista, o que poderá custar vidas na pandemia de COVID-19.

Até o prenuncio de sua demissão, por ofuscar a autoimagem do “cético-chefe”, o ministro Mandetta – defensor da ética, do foco e da disciplina – era visto como uma fonte de lucidez num governo vil, confuso, desastroso – que despreza à ciência, as recomendações da OMS e ignora o isolamento social – passou a dizer que o “presidente-cético” é o comandante da luta contra o coronavírus e da gestão da Saúde.

O acordo político conduzido pela ala militar, para garantir a permanência do ministro no cargo, inclui relaxar as diretrizes para o distanciamento social no país, preterindo a saúde pela economia. Tanto que o ministro mudou o discurso, afirmando que o governo “se reposiciona” para enfrentar o problema, cujo “nosso inimigo é o coronavírus”. E a tarde, baixou normas estabelecendo três níveis de isolamento que chamou de “distanciamento social seletivo” – situação em que apenas idosos e outros grupos de risco serão proibidos de circular livremente.

De fato, tais medidas são eficazes para atender às demandas políticas e econômicas, em detrimento da saúde coletiva e da ciência. A exemplo de outros países, o descontrole do isolamento social, para favorecer os interesses econômicos, poderá trazer resultados dramáticos, em função da falta de estrutura hospitalar no Brasil, principalmente em aglomerados urbanos comandados pelo tráfico e as milícias.

No mundo, todas as tentativas de ignorar a estratégia radical de isolamento social, como forma de evitar o avanço da Covid-19, deram errado: França, Itália, Suécia, Estados Unidos, Coreia do Sul, Espanha, Holanda, Reino Unido, Japão – o Brasil ameaçou segui-los, mas a pressão social e midiática fez o governo retroceder.

O combate ao coronavírus não prescinde do isolamento social por uma razão óbvia: no Brasil, há várias outras variáveis que devem ser consideradas para assegurar a preservação de vidas nas regiões mais vulneráveis. O crescimento exponencial da curva epidêmica não tolera as atitudes suavizantes e/ou irresponsáveis. O ministro sabe que o número de infectados, aparentemente baixo, se multiplica velozmente em questão de dias, colapsando hospitais e UTI’s – um único infectado vindo das áreas mais críticas pode criar um foco com milhares de casos. E, o Brasil, até agora, se quer conseguiu uma capacidade de testagem da população.

No Brasil, do ponto de vista da saúde pública nenhum dos 26 estados federados, 5.571 municípios e o Distrito Federal estão imunes a pandemia de COVID-19. Falta-lhes profissionais de saúde, estrutura hospitalar, capacidade de testes e de rastreamento. Para além dos interesses econômicos e políticos, o isolamento draconiano – o “lockdown” – só poderá ser evitado caso a maioria da população “Fique em casa tanto quanto possível”. Em Wuhan, o epicentro da pandemia, o governo chinês levou 11 semanas para diminuir as restrições, as medidas de isolamento e de circulação livre. Mas, sob monitoramento rígido do transporte para frear a contaminação.

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.

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