Doutor em Antropologia

Arnaldo Eugênio

Doutor em Antropologia

As aulas terremotos

Foto: Pref. Suzano

Aulas

Co-autoria Débora Moraes, Especialista em Educação 

A necessária ressignificação de práticas socioculturais e valores nas sociedades atuais, através da pandemia de coronavírus, forja um “novo normal”, ou a “modernidade líquida” (BAUMAN, 2008), cujas relações sociais se tornam fluídas, como os líquidos.

No Brasil, por um lado, estamos à deriva num contexto pandêmico e desorientados pelo desgoverno central. E, por outro lado, com a exigência sanitária de isolamento social foram interrompidas as aulas presenciais nas redes escolares públicas e privadas, revelando, dentre outros fenômenos, a inabilidade dos profissional da educação com as metodologias ativas e o uso de tecnologias.

Minimamente, as metodologias ativas são estratégias para potencializar as ações de ensino e aprendizagem por meio do envolvimento dos estudantes como atores do processo e não apenas como espectadores. Isto é reflexo da não existência de uma única forma de ensinar e aprender, onde a aprendizagem é um processo contínuo no qual os envolvidos no processo devem ser considerados como partes ativas (BACICH, 2017).

Especificamente, ao escancarar a inabilidade com as metodologias ativas e o uso de tecnologias, a pandemia de coronavírus, além de mostrar a nossa educação escolar paupérrima, cujo fim único é o de “passar de ano” ou “passar no ENEM”, produziu um estereótipo escolar chamado de “aula terremoto” – ou seja, um simulacro de aula virtual desprovido de aspectos didático-pedagógicos, que geram abalos sísmicos ou tremores simultâneos em professores, estudantes e no processo de ensino-aprendizagem.

Assim, desorientadas e sem a possibilidade de aulas presenciais para o alunado “passar de ano” ou “passar no ENEM”, a maioria das redes escolares públicas e privadas, passaram a assediar moralmente os profissionais da educação para que, intempestivamente, dessem conta das metodologias ativas e o uso de tecnologias, sem qualquer formação inicial e continuada. Em consequência, o improviso no uso de tecnologias gerou uma distorção de caráter didático-pedagógico, representado pela “aula terremoto”, onde a transferência das salas de aula para o ambiente doméstico, expor as imagens e as fragilidades formativas dos professores em redes virtuais (HORN e STAKER, 2015).

De agora em diante, a questão fundamental não é satanizar nem capacitar os profissionais da educação para o uso de metodologias ativas e de tecnologia no processo de ensino e aprendizagem, mas, essencialmente, aperfeiçoar a formação inicial e continuada daqueles a partir do que sabem e não do que não sabem, do que conhecem e não de seus medos.
Pois, não adianta ensinar o uso de uma ferramenta descontextualizado, mas de ensinar-lhes uma lógica diferente de compreender a informação. A pandemia de coronavírus desnudou a necessidade premente de uma formação inicial e continuada de todos profissionais da educação para o uso das tecnologias digitais em suas aulas (GUERRERO & KALMAN, 2010; PRENSKY, 2010).

Portanto, seria injusto culpabilizar somente os profissionais da educação pelas “aulas terremotos”. Até porque, em geral, as redes públicas e privadas negligenciam o conceito de educação, que abrange os processos formativos (art. 1º, LDB - Lei 9394/96).

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.


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