A novela internacional de Carla Zambelli (PL-SP) está chegando ao fim — e não com final feliz. A licença de 127 dias que a deputada tirou da Câmara dos Deputados para fugir do Brasil termina nesta quinta-feira (2), mas ela segue presa na Itália, acumulando faltas que podem levar à perda imediata de seu mandato.
A bolsonarista está foragida desde maio, quando cruzou a fronteira com a Argentina por Foz do Iguaçu (PR), em uma fuga cinematográfica sem controle migratório. De lá, seguiu para os Estados Unidos e depois para a Itália, onde acreditava estar protegida por sua cidadania italiana. Mas foi localizada e presa em julho nos arredores de Roma.
Com o fim da licença, Zambelli deveria reassumir seu posto na Câmara, atualmente ocupado pelo suplente Coronel Tadeu. No entanto, como está detida, começa a acumular faltas não justificadas. O regimento da Casa prevê a cassação automática de parlamentares que faltarem a mais de um terço das sessões sem justificativa válida ao longo de um ano — o que também ameaça Eduardo Bolsonaro, que fugiu para os EUA em março.
Zambelli já enfrenta um pedido de cassação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde o clima não é nada favorável. Até membros do PL, seu partido, não acreditam que ela consiga manter o cargo. A última movimentação no processo foi um depoimento direto do presídio em Roma, no qual a deputada alegou dificuldades com a língua portuguesa e disse estar aprendendo italiano. Ainda teve tempo de atacar o ministro Alexandre de Moraes, a quem chamou de “bandido”.
Ela também afirmou que “seria solta em breve”, acreditando que a Justiça italiana identificaria “abusos jurídicos” do Supremo Tribunal Federal (STF). No entanto, o STF já solicitou sua extradição, e a Procuradoria italiana deve se pronunciar até o fim de outubro.
Condenada por unanimidade a 10 anos de prisão por invadir o sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) com o hacker Walter Delgatti, Zambelli também foi sentenciada a mais 5 anos e 3 meses por porte ilegal de arma e constrangimento, após perseguir o jornalista Luan Araújo com uma pistola na mão, na véspera do segundo turno das eleições de 2022.
O caso repercutiu nacionalmente e foi um dos episódios que, segundo aliados de Jair Bolsonaro, prejudicaram sua campanha. Após o escândalo, o ex-presidente se afastou da deputada, que até então era uma de suas principais defensoras.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu que a Mesa Diretora não destituiria Zambelli por ofício e que não levaria o caso ao Conselho de Ética. Em vez disso, instaurou uma representação na CCJ. O colegiado agora aguarda o levantamento do sigilo do processo pelo STF para dar prosseguimento à cassação. Caso a comissão aprove, a perda do mandato será submetida ao plenário, que precisa de 257 votos para confirmar a decisão.
A aposta de Zambelli em viver como “intocável” na Itália fracassou. Presa e isolada, sua carreira política parece ruir rapidamente — não apenas no Brasil, mas agora também com repercussão internacional.