Wladimir, o Jogador negro do PT que conduziu Sócrates à Democracia Corinthiana

Há um cheiro de racismo em filmes, séries e livros que exploram a relação entre Sócrates e Casagrande, enquanto nada é dito sobre a importância de Wladimir na vida do Doutor

A chamada Democracia Corinthiana, movimento de autogestão ocorrido no Corinthians no início dos anos 1980, durante a ditadura militar, ficou marcada como um dos episódios mais significativos da relação entre futebol e política no Brasil. Liderado por jogadores como Sócrates, Wladimir e Casagrande, o grupo instituiu uma dinâmica em que decisões internas — da concentração à escalação — eram tomadas por votação, garantindo voz igualitária a atletas, comissão técnica e funcionários.

O movimento ultrapassou o campo esportivo ao inserir o debate político no cotidiano do clube. A equipe passou a estampar mensagens em defesa da redemocratização, como o apoio às Diretas Já, contribuindo para ampliar a conscientização pública em um período de transição democrática. A divulgação da iniciativa contou com o apoio do publicitário Washington Olivetto, responsável por consolidar a imagem pública daquele projeto.

No entanto, um dos protagonistas centrais da Democracia Corinthiana nem sempre recebeu a devida valorização na memória social: o lateral-esquerdo Wladimir. Militante de esquerda e filiado ao recém-criado Partido dos Trabalhadores, ele foi o primeiro jogador negro do país a assumir publicamente essa posição política, em um contexto em que importantes quadros do clube mantinham vínculos com o regime militar, como o então influente conselheiro Romeu Tuma.

Wladimir teve papel decisivo na formação política de Sócrates. À época, o meio-campista se considerava “apolítico” e chegou, em 1979, a elogiar o presidente João Figueiredo em entrevista à revista Playboy. A convivência com Wladimir — que estudava iorubá, frequentava ambientes culturais ligados à resistência e dialogava com movimentos populares — foi fundamental para que Sócrates passasse a compreender o futebol como espaço de disputa simbólica e social.

Enquanto na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto o jovem Sócrates preferia a boemia a participar de debates estudantis, no Corinthians ele descobriu, ao lado de Wladimir, que era possível conjugar vida pública, formação política e identidade popular. Dessa aproximação nasceu o movimento que transformou o clube em símbolo da luta pela democracia.

Há um cheiro de racismo em filmes, séries e livros que exploram a relação entre Sócrates e Casagrande, enquanto nada é dito sobre a importância de Wladimir na vida do Doutor.

Com informações de Tom Cardoso em seu facebook