Vem aí: “Família ao Pé da Cruz”: o uso da fé como ferramenta de poder político no Brasil

Evento mobiliza estádios pelo Brasil e levanta críticas sobre uso político da fé

O evento evangélico “Família ao Pé da Cruz”, promovido pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), está programado para ocorrer no dia 3 de abril de 2026, Sexta-feira da Paixão, em diversos estádios e arenas do país. A iniciativa, apresentada como ato religioso, ganha contornos controversos ao combinar mobilização de massa, alto investimento financeiro e sinais explícitos de articulação política.

Onde será o evento “Família ao Pé da Cruz”

A programação prevê encontros simultâneos em diferentes capitais brasileiras:

A ocupação simultânea de arenas de grande porte chama atenção pelo ineditismo e pela escala logística.

Megaevento religioso ou demonstração de poder político?

Embora apresentado como celebração de fé, o evento da IURD é interpretado por analistas como uma demonstração estratégica de força política e eleitoral. A escolha de grandes estádios e a mobilização nacional indicam mais do que espiritualidade: apontam para um movimento organizado de influência pública. 

Declarações de lideranças ligadas à igreja reforçam esse entendimento. Em vídeos divulgados nas redes sociais, o tom adotado dialoga diretamente com o ambiente de polarização política no país, especialmente entre o público evangélico, onde há crescente resistência ao governo federal. Quem explicitou o tom político da mobilização foi Renato Cardoso, genro de Macedo e apontado como seu sucessor. Em vídeo nas redes sociais, ele classificou o evento como “a maior lata de conservas da família” — uma ironia direta a manifestações culturais recentes que criticaram o conservadorismo e associadas erroneamente ao presidente Lula.

Na prática, o evento funciona como um ato de massa com potencial impacto eleitoral, capaz de mobilizar milhares de fiéis e consolidar narrativas políticas associadas a pautas conservadoras.

Custos milionários e questionamentos sobre financiamento

Outro ponto que amplia as críticas é o alto custo da operação. Aluguéis de arenas como a Neo Química Arena podem ultrapassar R$ 2,9 milhões por evento, enquanto espaços como o Pacaembu giram em torno de R$ 1,25 milhão. Com múltiplas cidades envolvidas, a mobilização pode facilmente atingir dezenas de milhões de reais.

Além disso, há questionamentos sobre o uso indireto de recursos públicos. Em alguns estados, governos locais já anunciaram apoio logístico e financeiro para viabilizar a estrutura dos eventos, o que levanta debate sobre a separação entre Estado e religião.

Universal, política e estratégia eleitoral

A Igreja Universal mantém histórico de atuação política por meio do partido Republicanos. O atual movimento ocorre em um contexto de reposicionamento estratégico da sigla, que busca recuperar protagonismo no cenário nacional.

A mobilização em larga escala serve como recado claro: a capacidade de reunir multidões continua sendo um ativo político relevante. Em um país onde o voto evangélico é decisivo, eventos como esse funcionam como instrumento de pressão sobre governos e alianças partidárias.

Fé, mercado e poder econômico

A estrutura por trás do evento também expõe o peso econômico da organização. A Universal integra um conglomerado que envolve mídia, instituições financeiras e diversos negócios.

O líder da igreja, Edir Macedo, construiu um império que inclui emissoras de televisão, rádios, editoras e participação no setor bancário. Esse poder financeiro permite investimentos de grande escala — como o evento de abril — mas também é alvo de controvérsias, incluindo disputas judiciais e investigações envolvendo instituições ligadas ao grupo, como o banco  Digimais,por exemplo.

O Banco Digimais, de bispo Edir Macedo, enfrenta um cenário de grave crise financeira, com estimativas de patrimônio líquido negativo em cerca de R$ 8,5 bilhões. Uma nova crise de proporções bilionárias está para estourar no setor financeiro. Seria algo parecido ao escandalo doBanco Master,

Religião como ferramenta de influência

A escolha da Sexta-feira da Paixão, data de forte simbolismo cristão, amplia o impacto emocional da mobilização. Ao mesmo tempo, o discurso centrado na “família” conecta-se diretamente a pautas políticas contemporâneas, reforçando a convergência entre religião e ideologia.

Na prática, o evento evidencia um fenômeno cada vez mais visível no Brasil: a utilização da fé como ferramenta de organização política e disputa de poder.

Entre cruzes e palanques

A realização do “Família ao Pé da Cruz” expõe uma fronteira cada vez mais tênue entre religião e política no país. Ao ocupar estádios, mobilizar milhões e dialogar com pautas eleitorais, a iniciativa deixa de ser apenas um ato religioso.

O episódio reforça um ponto central do cenário brasileiro atual: quem deseja disputar poder precisa considerar o peso das igrejas — e a Universal mostra que está disposta a exercer esse poder de forma explícita e estratégica.