A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) trata como atentado o assassinato do ex-delegado-geral da Polícia Civil e atual secretário de Administração de Praia Grande, Ruy Ferraz Fontes, morto a tiros no início da noite desta segunda-feira (15), no litoral sul paulista. A principal linha de investigação aponta para vingança do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção que o ex-delegado enfrentou ao longo de mais de quatro décadas de carreira.
O crime
Fontes foi atacado por volta das 18h, na Avenida Dr. Roberto de Almeida Vinhas, uma das mais movimentadas da cidade. Imagens de câmeras de segurança mostram o veículo do ex-delegado em fuga, em alta velocidade, até capotar ao colidir com um ônibus. Logo em seguida, três homens armados de fuzis desceram de uma Toyota Hilux preta e efetuaram disparos contra ele. O carro usado pelos criminosos foi encontrado incendiado horas depois.
Duas pessoas que estavam próximas também ficaram feridas, atendidas pelo Samu e encaminhadas ao Hospital Municipal Irmã Dulce, fora de risco.
Vingança do PCC
O secretário-executivo da SSP, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou ao portal Metrópoles que “certamente foi vingança do PCC”, destacando a trajetória de Fontes no enfrentamento à facção. O ex-delegado chefiou, no início dos anos 2000, a Delegacia de Roubo a Bancos do Deic, quando comandou as primeiras investigações contra o PCC e participou da prisão de seus principais líderes, incluindo Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola.
Em 2019, quando era delegado-geral da Polícia Civil, Fontes foi jurado de morte pelo PCC após a transferência de Marcola para uma penitenciária federal. Desde então, vivia sob ameaças constantes.
Repercussão e investigação
A SSP confirmou que equipes especializadas da Polícia Civil estão em campo, utilizando ferramentas de inteligência para identificar e prender os responsáveis. Tropas da ROTA foram deslocadas para a Baixada Santista. O Ministério Público também anunciou que o Gaeco atuará em apoio às investigações.
Em nota, a SSP lamentou a execução e classificou o crime como “uma afronta às Forças de Segurança e ao Estado”. Já o Sindicato dos Delegados de Polícia (Sindpesp) responsabilizou o governo paulista, afirmando que a morte de Fontes expõe o enfraquecimento da Polícia Civil e a falta de valorização da categoria.
Trajetória
Formado em Direito pela Faculdade de São Bernardo do Campo, com pós-graduação em Direito Civil, Ruy Ferraz Fontes ingressou na Polícia Civil nos anos 1980. Atuou no DHPP, no Denarc e no Deic, onde ganhou notoriedade ao enfrentar diretamente o PCC. Em 2006, durante os ataques coordenados pela facção em São Paulo, consolidou sua imagem como um dos maiores especialistas no combate ao crime organizado.
Foi delegado-geral entre 2019 e 2022, indicado pelo então governador João Doria, e desde 2023 exercia o cargo de secretário de Administração de Praia Grande. Além da carreira policial, foi professor de Criminologia e Direito Processual Penal e participou de cursos de especialização no Brasil, França e Canadá.
Ao longo da carreira, sobreviveu a diversas tentativas de emboscada e assaltos, sempre atribuindo os riscos ao enfrentamento direto ao PCC. Em entrevista ao Estadão em 2023, após ser vítima de um assalto, reconheceu: “Eu combati esses caras durante tantos anos, e agora os bandidos sabem onde moro”.