“A comunicação é a principal via para resolver os conflitos” ( Jurgen Habermas)
Certa vez, em minha inicial atuação num estágio clínico no curso de Psicologia, discente como era do oitavo período, deparei-me com minha primeira paciente. Por razões óbvias e fundamentalmente éticas, não darei detalhes. Mas posso resumir bem. Um misto de ansiedade e certa confiança em fazer um bom trabalho me envolveram. “ Por qual motivo não posso tentar ser inteiro nessa empreitada?”. imediatamente meus pensamentos intrusivos desapareceram. Sinto que fiz um bom trabalho para alguém que estava começando. Aqui estou. Um pouco mais confiante e um pouquinho mais experiente se comparado à época desse acontecido.
Quem sabe minimamente de Filosofia, sabe bem a importância da maiêutica desenvolvida pelo método socrático de dar à luz suas próprias ideias e verdades internas. A dialética sempre foi um caminho muito nobre para refletir bem acerca de questões pertinentes, começando pela própria cosmovisão do mundo. Mais do que consumir respostas prontas, fruto de sugestões, é fulcral a necessidade da reflexão. O confronto de pontos de vista. A sinceridade do desapego daquilo que você acha, para o abrir-se diante dos fatos, independente do que venha a surgir, gostando ou não. A verdade só pode ser vislumbrada partindo desse ponto.
Outro dia me perguntaram num momento de confraternização em que eu participava: “Por qual motivo você vota no PT e em candidatos petistas?”. Lembrei que nunca foi assim no começo. Houve um tempo, momentos da meninice, que eu queria ver o Diabo, mas não aceitaria a ideia de votar em quaisquer candidatos que fossem do PT. Com o tempo e na prática da vivência, aprendi com um grande amigo o valor da frase: “O que a gente não pode esconder. A gente escancara”. Sorri pelo retrospecto que fiz diante da indagação e respondi, dizendo: “Por qual motivo eu não votaria, e por qual motivo você também não votaria?”. O sujeito parou ante meu questionamento. Baixou a cabeça. Franziu a testa e permaneceu calado. Neste momento, ao perceber que o cidadão se encontrava num emaranhado de entraves, dei partida à continuação de minha indagação com mais perguntas. “Quem ou o quê te fez acreditar que o PT te fez algum mal?” . O sujeito continuou sem reação. Por fim, finalizei: “Qual ética você optou por modelo de vida para metrificar o que veio antes de você, o que se apresenta agora, e o que tem de promessa na longevidade?” . O nobre conhecido tomou uma atitude. Encheu meu copo de cerveja, que estava vazio e calhou muito bem com a tarde ensolarada. “Vamos mudar de assunto. Depois penso nisso”. Ele realmente pensou depois. Alguns dias que sucederam os fatos narrados, veio-me procurar para saber um pouco mais sobre essa coisa linda de programas sociais, políticas públicas fomentadas pelos governos petistas e assim vai. A maiêutica fez efeito. Sócrates acertou mais uma vez.
Essa reflexão não é para quem está conhecendo o PT, o Lula ou o excelentíssimo governador do Piauí, Rafael Fonteles. Essa reflexão é para quem se faz conhecer, através desses pilares. A dialética não pode ser construída pelo argumento puro, mas pelos fragmentos da realidade que fazem o todo. Não é mostrar a importância dos mesmos já citados, mas fornecer instrumentos que mobilizem uma tomada de consciência sobre o motivo dos mesmos já citados não serem vilipendiados por quem inventa novas formulações sobre o que é moral, ética, certo ou errado. Para saber quem é Lula, quem é o Rafael ou a importância histórica do PT, é necessário uma investida questionadora: Quem está do outro lado falando sobre eles. Não encontro outros meios que não sejam a articulação do passado na soma do que é o presente. Não se pode e nem deve falar do Lula pelo que ele representa, mas por qual motivo sua ausência acarretaria. Do mesmo modo o Rafael e o PT no geral. Falamos do PT com mais de vinte anos de gestão. Entretanto, o que foi o Piauí antes disso e quem está interessado na possibilidade de extinção do PT e seus quadros?
A esfera política não pode prevalecer sobre a esfera fenomenológica do próprio indivíduo. Não é sobre “quem é o governador Rafael, ou quem é o presidente Lula?”, mas sim “quem é o Rafael estando governador, ou quem é o Lula ocupando a presidência?” . A importância do legado está quando se reflete o que os homens trouxeram para os cargos públicos, e não o que os cargos públicos são com a presença deles ou ausência. O Brasil sempre será o Brasil. O Piauí continuará existindo, enquanto espaço territorial. A questão é: De qual Brasil e de qual Piauí estamos falando se os mesmos não se fizerem presentes? Não nos esqueçamos, se o Brasil não precisa do Lula e se o Piauí não precisa do Rafael, o Brasil e o Piauí precisam de quem? Se a esquerda é nociva, quem é o antídoto? Se o PT é tão ruim assim, quem é tão bom que já tenha provado sua credibilidade para desqualificar? Em resumo: Se o PT destruiu, o que a direita construiu?