Turilândia entra para a história recente do Maranhão como a cidade em que toda a estrutura política eleita passou a responder, simultaneamente, por suspeitas de corrupção, organização criminosa e desvio milionário de recursos públicos.
O QUE ACONTECEU
No interior do Maranhão, Turilândia passou a simbolizar um dos mais amplos escândalos de corrupção municipal já registrados no estado. A Justiça determinou a prisão do prefeito, da vice-prefeita e de todos os 11 vereadores do município, suspeitos de integrar uma organização criminosa responsável por fraudes em licitações e desvio sistemático de recursos públicos.
Nesta quinta-feira (25), cinco vereadores que estavam foragidos se apresentaram à polícia em Pinheiro. A entrega ocorreu no mesmo dia em que a Justiça manteve as prisões preventivas do prefeito Paulo Curió (União Brasil), da primeira-dama Eva Curió, da ex-vice-prefeita Janaína Lima, do marido dela, Marlon Serrão, e do contador da prefeitura, Wandson Jhonathan Barros. Também foi mantida a prisão domiciliar do presidente da Câmara Municipal, José Luís Araújo (União Brasil), autorizado a assumir interinamente o comando da prefeitura.
Segundo o Ministério Público, todos os vereadores — incluindo um que atualmente ocupa o cargo de secretário municipal de Agricultura — são suspeitos de participação no esquema. As investigações apontam que, em menos de quatro anos, o grupo desviou cerca de R$ 56 milhões dos cofres públicos. Apenas nas áreas de saúde e assistência social, o prejuízo estimado chega a R$ 43 milhões.
De acordo com o Ministério Público, empresas de fachada ou controladas pelos próprios investigados eram utilizadas para emitir notas fiscais por serviços que não eram prestados. A prefeitura realizava os pagamentos, e a maior parte do dinheiro retornava para contas indicadas pelo contador Wandson Barros. As empresas ficavam com comissões que variavam entre 10% e 15%.
Um dos exemplos mais emblemáticos envolve um posto de combustíveis pertencente à ex-vice-prefeita Janaína Lima e ao marido. Em três anos, o estabelecimento recebeu mais de R$ 17 milhões por abastecimentos que, segundo a investigação, jamais ocorreram. Desde 2021, o local teria sido usado como instrumento de lavagem de dinheiro.
A operação, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) e pela Polícia Militar, resultou na prisão de 14 pessoas desde o início da semana, em Turilândia e em São Luís. Entre os detidos estão seis vereadores, a atual vice-prefeita Tânia Mendes e um neurocirurgião acusado de atuar como agiota, emprestando dinheiro ao prefeito. Na casa do irmão do médico, os agentes encontraram mais de R$ 2 milhões em espécie.
A responsável pelos pregões eletrônicos da prefeitura, Clementina de Jesus Pinho, também foi presa. Em depoimento, ela admitiu que cerca de 95% das licitações do município foram fraudadas por determinação direta do prefeito. Segundo o Ministério Público, a servidora afirmou que aceitava participar do esquema em troca de presentes e vantagens pessoais.
Apesar de investigado, o presidente da Câmara não foi afastado do cargo e assumirá interinamente a administração municipal, decisão que, segundo o Ministério Público, poderá ser reavaliada pelo Procurador-Geral de Justiça do Maranhão, inclusive com a possibilidade de intervenção no município.
As defesas de Paulo Curió e de Eva Curió informaram que eles estão à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos. A defesa da vice-prefeita Tânia Mendes não se manifestou. Não foi possível contato com os advogados dos demais citados.