Túnel Santos-Guarujá: mais um sonho centenário que Lula tira do papel. Obras iniciam agora em 2025

Leilão define consórcio para construção do túnel submerso entre Santos e Guarujá

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem se notabilizado por tirar do papel projetos históricos que repousaram durante décadas nos arquivos da administração pública. Em seus primeiros governos, levou adiante a transposição do Rio São Francisco — um sonho que remontava ainda ao período do Império — e, agora, vê se concretizar outro desejo centenário: a construção do túnel submerso entre Santos e Guarujá, cujas obras devem começar ainda este ano após mais de 100 anos de espera.

O projeto que há quase um século figura no imaginário da população da Baixada Santista finalmente saiu do papel. Nesta sexta-feira (5), o grupo português Mota-Engil venceu o leilão realizado na B3, em São Paulo, para a construção do túnel imerso que ligará as cidades de Santos e Guarujá. O investimento total é estimado em R$ 6,8 bilhões, sendo R$ 5,1 bilhões provenientes de recursos públicos — divididos entre a União e o governo paulista — e R$ 1,78 bilhão da concessionária.

A obra inédita no Brasil prevê a utilização da tecnologia de túnel imerso, já consolidada em países da Europa e da Ásia. Serão 1,5 quilômetro de extensão, incluindo 870 metros submersos sob o estuário do Porto de Santos. O trajeto, que hoje pode levar de 45 minutos a mais de uma hora pelas balsas ou pela estrada, deverá ser reduzido para apenas três a cinco minutos após a conclusão.

Estrutura e impacto

O túnel contará com seis faixas de tráfego, ciclovia, passagem para pedestres e espaço reservado para um futuro Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Sistemas de monitoramento em tempo real, controle inteligente de tráfego e mecanismos de segurança também estão previstos no projeto. A expectativa é de geração de cerca de cinco mil empregos diretos durante os cinco anos de execução.

“Essa obra vai mudar completamente a radiografia da mobilidade urbana na Baixada Santista, ampliando a logística, fortalecendo o turismo de negócios e de lazer”, afirmou o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, presente ao leilão.

Divergências políticas

O evento reuniu autoridades federais e estaduais e evidenciou divergências sobre a gestão portuária. O vice-presidente Geraldo Alckmin criticou a proposta do governo paulista de privatizar o Porto de Santos, defendendo que a viabilização da obra se deve à Autoridade Portuária, órgão público responsável pela administração do porto. Já o governador Tarcísio de Freitas evitou a polêmica e destacou que o momento era de celebração: “A gente tem que deixar as questões políticas de lado e pensar no interesse do cidadão. Esse projeto estava em estudos há mais de 100 anos”.

Durante o leilão, Alckmin aproveitou para brincar com Tarcísio, conhecido por bater o martelo com força nas disputas da B3. “Eu, como sou anestesista, a mão tem que ser cuidadosa, não pode ser na força”, disse, arrancando risos dos presentes.

Protestos e garantias

Enquanto o certame ocorria, moradores de uma comunidade de Santos protestaram do lado de fora, temendo desapropriações. O governador Tarcísio garantiu que os afetados não serão abandonados: “Ninguém vai ter uma casa pior, só vai ter uma casa igual ou melhor, na mesma cidade. Isso está garantido no contrato”.

Próximos passos

Segundo o ministro Silvio Costa Filho, as obras devem começar ainda no fim de 2025. Ele adiantou que o governo federal já dialoga com São Paulo para outro leilão estratégico no litoral: o do Porto de São Sebastião, previsto para o primeiro trimestre de 2026.

Com previsão de conclusão até 2030, o túnel Santos-Guarujá promete pôr fim a um ciclo de promessas e frustrações que atravessou gerações, marcando um divisor de águas na mobilidade urbana e na infraestrutura portuária brasileira.