Trump, Groenlâdia, boicote europeu e um mundo sem Copa do Mundo

A possibilidade de boicote europeu à Copa do Mundo de 2026 ganhou força após declarações de dirigentes e parlamentares contra posições do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a Groenlândia

A possibilidade de boicote europeu à Copa do Mundo de 2026 ganhou força após declarações de dirigentes e parlamentares contra posições do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a Groenlândia. Na Alemanha e no Reino Unido, autoridades e lideranças esportivas defendem o debate como forma de pressão diplomática. Pesquisas indicam apoio significativo da população, embora nenhum governo tenha anunciado oficialmente a retirada do torneio.

O QUE ACONTECEU

A possibilidade de um boicote em massa à Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, passou a ocupar o centro do debate político e esportivo na Alemanha e em outros países europeus. A discussão ganhou força após declarações do vice-presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Oke Göttlich, que defendeu a necessidade de “debater seriamente” uma eventual retirada coletiva do torneio como reação às recentes posições do presidente norte-americano Donald Trump, especialmente em relação à Groenlândia.

Em entrevista ao jornal Hamburger Morgenpost, repercutida por O Globo, Göttlich — que também preside o clube St. Pauli e integra o Comitê Executivo da DFB — afirmou que o atual cenário internacional exige uma reflexão profunda por parte das entidades esportivas. Segundo ele, o esporte não pode se afastar completamente dos debates políticos quando valores democráticos e princípios éticos estão em jogo.

Ao justificar sua posição, o dirigente citou os boicotes aos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, e de Los Angeles, em 1984, durante a Guerra Fria. Para Göttlich, o momento atual pode ser ainda mais delicado. Ele também criticou a postura considerada contraditória das entidades esportivas, que adotaram posições rígidas em relação à Copa do Mundo do Catar, mas agora evitam se manifestar diante do contexto político envolvendo os Estados Unidos.

Em tom mais contundente, o vice-presidente da DFB questionou os limites éticos das lideranças esportivas e políticas. Ele mencionou diretamente o presidente da entidade alemã, Bernd Neuendorf, e o presidente da Fifa, Gianni Infantino, ao cobrar posicionamentos mais claros diante das declarações e ameaças feitas por Trump.

O debate rapidamente ultrapassou o ambiente esportivo e passou a envolver parlamentares e autoridades políticas. Na Alemanha, membros do Parlamento passaram a defender publicamente a possibilidade de boicote como forma de pressão diplomática. Em resposta, o governo federal reforçou que a decisão cabe exclusivamente às federações esportivas.

Em nota enviada à agência AFP, a secretária de Estado do Esporte, Christiane Schenderlein, afirmou que o Executivo respeitará qualquer decisão tomada pela DFB e pela Fifa. Segundo ela, a participação ou não em grandes eventos esportivos deve permanecer fora da esfera política.

Entre os parlamentares alemães, o deputado conservador Roderich Kiesewetter, da CDU, afirmou que uma eventual anexação da Groenlândia ou uma guerra comercial entre Estados Unidos e União Europeia poderia inviabilizar a presença europeia no Mundial. Já Jürgen Hardt, também da CDU, classificou o boicote como “último recurso” para pressionar Trump. O social-democrata Sebastian Roloff defendeu uma resposta coordenada da Europa.

A discussão também encontra respaldo na opinião pública. Pesquisa do instituto INSA aponta que 47% dos alemães apoiariam um boicote caso os Estados Unidos avancem sobre a Groenlândia, enquanto 35% são contrários. Outros 18% se dizem indecisos.

No Reino Unido, o tema também ganhou espaço. O deputado conservador Simon Hoare defendeu a não participação como forma legítima de protesto. A trabalhista Kate Osbourne reforçou a posição, citando mobilizações anteriores contra Trump. Já o liberal-democrata Luke Taylor adotou tom mais duro, afirmando que o presidente norte-americano responde apenas a pressões simbólicas e defendeu, além do boicote, o cancelamento de compromissos diplomáticos.

Apesar do tom crítico, nenhum governo europeu anunciou oficialmente a intenção de retirar sua seleção da Copa. Na Alemanha, o governo reiterou que a decisão cabe à DFB e à Fifa. No Reino Unido, a secretária de Relações Exteriores, Yvette Cooper, afirmou que o país seguirá priorizando o diálogo diplomático com Washington.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de forma conjunta por Estados Unidos, Canadá e México. No entanto, as recentes declarações de Trump sobre a Groenlândia, território ligado à Dinamarca, reacenderam tensões diplomáticas. O governo norte-americano voltou a defender a compra da região e admitiu, em declarações recentes, que não descarta o uso da força militar.

O contexto político se soma à proximidade entre Trump e o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que recentemente concedeu ao líder norte-americano o Prêmio da Paz da entidade durante o sorteio do Mundial, fato que também gerou críticas na Europa.

A Alemanha, tetracampeã mundial, nunca ficou fora de uma edição da Copa desde seu retorno às competições internacionais em 1950. Um eventual boicote representaria, portanto, um fato inédito na história recente do país no futebol.

Histórico de boicotes em Copas do Mundo

Ao longo da história, seleções já deixaram de disputar Copas do Mundo por razões políticas, diplomáticas ou institucionais.

1930 e 1934 – Grã-Bretanha
Os britânicos se ausentaram das duas primeiras edições por considerarem seus torneios nacionais superiores aos organizados pela Fifa. O país só passou a integrar a entidade em 1946.

1934 – Uruguai
Campeão em 1930, o Uruguai boicotou o Mundial da Itália em protesto à baixa presença europeia na edição realizada em seu território.

1938 – Uruguai e Argentina
Ambos se ausentaram em protesto contra a escolha da França como sede, frustrando a expectativa de alternância entre Europa e América do Sul.

1950 – Índia
A seleção desistiu de disputar o Mundial no Brasil. Apesar da versão popular sobre a proibição de jogar descalço, investigações indicam que o país não considerava a competição prioritária.

1958 – Eliminatórias contra Israel
Turquia, Indonésia, Egito e Sudão se recusaram a enfrentar Israel por motivos políticos, permitindo que a seleção se classificasse sem jogar. Posteriormente, Israel foi eliminado pelo País de Gales.

1966 – África
As seleções africanas boicotaram as eliminatórias em protesto contra o sistema de vagas da Fifa, considerado injusto, e contra a reintegração da África do Sul durante o Apartheid.

1974 – União Soviética
A URSS se recusou a enfrentar o Chile em protesto contra o regime de Pinochet. O adversário venceu por W.O. após entrar sozinho em campo.