Trump, a extrema direita e a manipulação da culpa pela morte de Charlie Kirk

Crime expõe a cultura de violência nos EUA e a tentativa de transformar o assassinato em instrumento político

Por Clara Castanho, jornalista, no GGN 

O assassinato de Charlie Kirk, ativista de extrema direita de 31 anos, em uma universidade de Utah, expõe mais uma vez a cultura de violência profundamente enraizada nos Estados Unidos. O principal suspeito, Tyler Robinson, de 22 anos, foi preso nesta sexta (12). 

Apesar de o presidente Donald Trump ter atribuído o crime à esquerda, a CNN americana aponta que Robinson “ficou mais político nos últimos anos”, mas não tinha filiação partidária nem votou nas últimas duas eleições.

Ao GGN, o escritor, doutor em Literatura Comparada pela UERJ e diretor do IBEP, Marcelo Barbosa, afirma que “É preciso rejeitar essa narrativa irresponsável. Num país tão conflagrado e armado, atentados também já foram obra de desequilibrados sem motivação ideológica, como John Hinckley, que atirou em Ronald Reagan nos anos 80. É cedo para culpar a esquerda por esse episódio”, disse Barbosa.

De acordo com o pesquisador Reynaldo Aragon, associar a violência à esquerda é uma tática antiga da direita norte-americana para reforçar o medo e justificar políticas repressivas.“Kirk não caiu por ser inimigo da esquerda. Seu assassinato, ainda em investigação, está sendo usado como escudo para apagar uma verdade incômoda: ele incomodava mais o próprio campo conservador do que seus adversários democratas”, aponta Aragon.

A violência histórica dos EUA

Para entender o problema, Barbosa explica que o conservadorismo americano atual se distanciou de suas raízes históricas. “O que se consolidou nos últimos 40 anos foi um caldo formado pelo neoliberalismo de Estado mínimo, pelas teologias de domínio e prosperidade e, mais recentemente, pela tendência disruptiva do trumpismo, que não opera dentro das instituições, mas as toma de assalto”, detalha.

Charlie Kirk é visto como fruto dessa cultura, “a própria encarnação de um conservadorismo que não esconde elementos de uma violência histórica”. O analista lembra que a história política dos EUA é marcada por assassinatos de presidentes como Abraham Lincoln, James A. Garfield e John Kennedy. Para ele, esses elementos sempre estiveram presentes, mas agora se aproximam cada vez mais de uma situação de guerra civil.

Como a extrema direita transforma violência em política global

O atentado também revela a articulação internacional da extrema direita. No Brasil, políticos como Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG) rapidamente “sopraram o apito de cachorro, atribuindo o crime à esquerda, em uma sincronia de discursos que sugere um concerto internacional na narrativa política“, explica Barbosa.

Essa articulação transnacional não é nova. Ela foi construída desde meados dos anos 2000, com o guru da direita, Olavo de Carvalho, importando ideias do estrategista Steve Bannon, ex-assessor de Donald Trump.

No Brasil, essa influência conseguiu algo inédito. “Implantar uma vertente liberal no ‘povão’, algo que nunca existiu antes, com apoio de determinadas igrejas ligadas às teologias de prosperidade”, expõe Barbosa.

O fenômeno também atrai setores do crime e do grande capital, que se beneficiam de um modelo que floresce na ausência de regulação, o que alguns chamam de “capitalismo jagunço. Tais forças se conectam à política e exploram brechas da legalidade para acumulação de capital”.

A cobertura da imprensa sobre o caso também foi criticada durante o programa: “O gringo morto ganhou fama e muito dinheiro vomitando ódio e fazendo apologia das armas, mas a imprensa o chama de conservador e não de fascista. A normalização do fascismo é o problema. Ao se evitar chamar as coisas pelo nome, ele se naturaliza na paisagem política, econômica e social”, conclui Barbosa.