Três travestis que estão redesenhando a ciência e as instituições brasileiras

Josy Maria, Céu Cavalcanti e Fabi Diniz ampliam a presença travesti na universidade, na pesquisa e em instituições públicas brasileiras

Por Sara Wagner York, jornalista, no 247 

Há poucos anos, encontrar uma travesti ocupando uma sala de aula universitária já era motivo de surpresa. Hoje, elas orientam pesquisas, produzem conhecimento, influenciam políticas públicas e passam a ocupar alguns dos espaços mais disputados do Estado brasileiro.

Em diferentes áreas do conhecimento, Josy Maria Alves de Souza, Céu Cavalcanti e Fabi Diniz de Queiróz Pilate representam uma geração que rompe barreiras históricas e amplia o significado da presença de mulheres trans e travestis na ciência e nas instituições públicas.

Cada uma percorreu um caminho distinto. Juntas, demonstram que a produção intelectual travesti tem transformado a Linguística, a Psicologia, o Direito e a própria compreensão da democracia brasileira.

Josy Maria Alves de Souza e o direito de existir pelo nome

Em 2025, Josy Maria Alves de Souza tornou-se a primeira travesti brasileira a concluir um doutorado em Linguística e Língua Portuguesa. Sua tese, intitulada Identidades em Trânsito, investiga as narrativas de travestis e mulheres trans sobre a retificação do registro civil, analisando como nome, linguagem e identidade atravessam a construção da existência.

Desde então, Josy tornou-se uma das principais referências nacionais quando o assunto é nome social, retificação de documentos e transgeneridade.

Sua pesquisa nasce da própria experiência de exclusão.

“Minha história começa marcada pela exclusão. Fui expulsa de casa ainda muito jovem e, por pouco, também expulsa do direito de estudar. A escola e a universidade, que tantas vezes me negaram espaço, agora se tornam palco da minha presença, não como exceção, mas como afirmação de que nós, travestis e mulheres trans, pertencemos à educação, à ciência e à história.”

Ao apresentar sua tese, Josy sintetizou o sentido político de sua produção acadêmica.

“Minha pesquisa é um trabalho acadêmico. Mas é também a restituição de uma voz que o CIStema tentou calar. É o meu corpo e os das minhas colaboradoras escrevendo os nossos nomes.”

Céu Cavalcanti e uma psicologia comprometida com a transformação social

Professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Céu Cavalcanti consolidou sua atuação na interface entre Psicologia, políticas públicas e direitos humanos.

Coordenadora do Laboratório de Políticas Públicas, Análises e Intervenções em Psicologia Social, recentemente passou a integrar também o Programa de Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social da UFRJ, onde orientará pesquisas de mestrado e doutorado.

Ao anunciar esse novo momento de sua trajetória, destacou que sua chegada à pós-graduação reafirma uma escolha pela interdisciplinaridade.

“Fui percebendo que gosto muito do passeio interdisciplinar. Ao mesmo tempo, tomar a perspectiva interdisciplinar e com ela ocupar a Psicologia me pareceu tarefa urgente.”

Para ela, formar novas pesquisadoras e pesquisadores representa uma continuidade natural de sua caminhada acadêmica.

“Chegar na pós era pra mim inevitável. Entre muitas bancas e coorientações que eu já tava fazendo, agora passo eu mesma a também me responsabilizar mais diretamente enquanto orientadora por alguns caminhos de formação.”

Sua presença na universidade também dialoga com a construção de novos referenciais para a Psicologia brasileira, aproximando extensão universitária, pesquisa e atuação institucional.

Fabi Diniz de Queiróz Pilate leva a pesquisa amazônica ao Ministério Público

Pesquisadora das relações entre Direito Penal, Criminologia, Filosofia do Direito e Psicologia Jurídica, Fabi Diniz de Queiróz Pilate acaba de ser convocada para a cerimônia de posse como promotora de Justiça no Estado do Amazonas, iniciando uma nova etapa de sua trajetória acadêmica e institucional.

Em entrevista, Fabi explicou que seu interesse pela Amazônia antecede os estudos sobre organizações criminosas e surgiu da necessidade de compreender um território que desafia os modelos tradicionais de análise produzidos a partir das grandes metrópoles brasileiras.

Segundo ela, a dinâmica amazônica exige novas categorias de interpretação.

“Não existe um único modelo de expansão das facções. Existem diferentes formas de organização, que variam conforme o território.”

Sua pesquisa demonstra que rios, fronteiras internacionais, questões ambientais e desigualdades sociais produzem formas próprias de organização das redes criminosas, exigindo respostas igualmente complexas do Estado.

Para Fabi, compreender a Amazônia implica abandonar respostas simplificadas.

“A resposta penal é necessária, mas não suficiente. É preciso fortalecer políticas públicas, investir em inteligência, ampliar a cooperação entre instituições e compreender que a presença do Estado não se resume à repressão.”

Sua abordagem também rompe fronteiras disciplinares ao reunir Direito, Psicologia, Ciência Política, Filosofia e estudos de gênero para compreender o fenômeno do crime organizado como uma disputa de poder que ultrapassa a esfera penal.

Agora, ao assumir uma cadeira no Ministério Público amazonense, acredita que a experiência acadêmica poderá fortalecer sua atuação institucional.

“A pesquisa oferece algo extremamente valioso. Ela amplia nossa capacidade de compreender o contexto em que esses conflitos acontecem.”

E conclui defendendo que produção científica e atuação pública não são caminhos opostos.

“A pesquisa e a prática institucional, quando caminham juntas, fortalecem não apenas a atuação do Ministério Público, mas também a própria democracia.”

E então a presença deixou de ser exceção

As histórias de Josy Maria Alves de Souza, Céu Cavalcanti e Fabi Diniz de Queiróz Pilate revelam um movimento maior do que conquistas individuais. Elas demonstram que travestis e mulheres trans não apenas conquistam espaço nas universidades e nas instituições públicas, mas também produzem conhecimento que modifica essas próprias instituições.

Da linguagem ao Direito, da Psicologia à Justiça, suas trajetórias mostram que diversidade não é apenas representação. É também produção científica, formação de novas gerações e construção de respostas inéditas para problemas históricos da sociedade brasileira. Que venham muitas outras…