O Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) está em busca de voluntários para doação de fezes, utilizadas no transplante de microbiota fecal — um procedimento inovador que vem ganhando destaque no tratamento de infecções intestinais graves. Apesar de ainda pouco conhecido do público, o método apresenta alta taxa de sucesso e já beneficiou pacientes em Belo Horizonte.
Desde 2017, o Centro de Transplante Fecal do HC-UFMG oferece o tratamento de forma experimental. A unidade é a única no Brasil especializada nesse tipo de procedimento e também mantém um banco de fezes, onde o material doado é processado e transformado em um filtrado que será implantado no intestino do paciente.
Transplante de microbiota fecal: como funciona o tratamento
O transplante de microbiota fecal consiste na transferência de bactérias saudáveis presentes nas fezes de um doador para o intestino de um paciente. O objetivo é restaurar o equilíbrio da flora intestinal, especialmente em casos de infecção recorrente pela bactéria Clostridioides difficile, que pode causar desde diarreias leves até quadros graves de inflamação no cólon.
De acordo com o gastroenterologista Eduardo Vilela, responsável pelo centro, o procedimento pode ser realizado por diferentes métodos, como colonoscopia, endoscopia ou sonda nasoentérica. Após o transplante, o paciente é acompanhado clinicamente, e os resultados costumam aparecer rapidamente.
“Na maioria dos casos, já na primeira semana o paciente apresenta melhora significativa, com redução do número de evacuações”, explica o médico.
Segundo dados do HC-UFMG, cerca de 20 pacientes já foram tratados com a técnica, com taxa de sucesso de aproximadamente 90%.
Procedimento ainda não é aprovado pela Anvisa
No Brasil, o transplante de microbiota fecal ainda não tem autorização formal da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Por isso, só pode ser realizado dentro de protocolos de pesquisa ou com consentimento expresso do paciente.
A situação é diferente em países como os Estados Unidos, onde o procedimento já é aprovado pela FDA (Food and Drug Administration) e conta, inclusive, com formulações comerciais do material fecal processado.
Cápsulas com microbiota: alternativa em estudo
Além dos métodos tradicionais, pesquisadores estudam a utilização de cápsulas liofilizadas contendo o material fecal. Ao serem ingeridas, essas cápsulas ajudam a reativar a flora intestinal e combater a infecção de forma menos invasiva.
Preconceito ainda é desafio para o tratamento
Apesar da eficácia comprovada, o transplante de fezes ainda enfrenta resistência por parte da população. Segundo Eduardo Vilela, o principal obstáculo é o preconceito em relação ao uso do material.
“No entanto, todo o processo segue protocolos rigorosos de segurança. O material é altamente filtrado, analisado e preparado por uma equipe especializada, garantindo segurança ao paciente”, afirma.
As amostras são armazenadas em ultrafreezers a -80°C, o que permite sua conservação por longos períodos sem perda de qualidade.
Quem pode doar fezes para transplante
O HC-UFMG procura doadores saudáveis, com idade entre 18 e 50 anos, de ambos os sexos. O processo de seleção inclui entrevista inicial, exames clínicos e laboratoriais detalhados, além de testes específicos para garantir a segurança do receptor.
Os interessados devem manifestar interesse por e-mail: transplantedefezeshcufmg@gmail.com.
Falta de doadores compromete tratamentos
Um dos principais desafios enfrentados pelo centro é a dificuldade em manter um banco regular de doadores. Segundo o especialista, muitos voluntários iniciam o processo, mas não retornam para efetivar a doação.
“Os exames têm validade de três meses, mas frequentemente os candidatos não seguem até o fim. Isso compromete a disponibilidade de material e pode atrasar tratamentos”, explica Vilela.
Importância da doação para avanço da medicina
A ampliação do número de doadores é considerada fundamental para o avanço do transplante de microbiota fecal no Brasil. Além de ajudar pacientes com infecções graves, a técnica abre caminho para novas pesquisas e tratamentos relacionados à saúde intestinal.
“Dominar essa tecnologia no país é essencial. E, para isso, precisamos da conscientização da população sobre a importância da doação”, conclui o médico.