Torça, mas não se iluda! O mundo do futebol é corrupto

A história da ingerência dos EUA na FIFA

Em maio de 2015, uma operação comandada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ), com apoio das autoridades suíças, provocou um terremoto no futebol mundial. Agentes da polícia da Suíça entraram no luxuoso Hotel Baur au Lac, em Zurique, onde dirigentes da FIFA estavam hospedados para o congresso anual da entidade, e prenderam sete cartolas acusados de integrar um esquema internacional de corrupção, fraude eletrônica e lavagem de dinheiro. Embora o então presidente da FIFA, Joseph Blatter, não tenha sido preso naquela manhã, a operação abriu caminho para sua queda poucos dias depois e marcou o início de uma profunda intervenção da Justiça norte-americana sobre o principal organismo do futebol mundial.

A investigação norte-americana sustentava que dirigentes da FIFA e de confederações continentais haviam recebido mais de US$ 150 milhões em propinas ao longo de mais de duas décadas em troca da concessão de direitos comerciais, contratos de marketing e escolha de sedes de competições internacionais. O Departamento de Justiça alegou que parte significativa dessas transações passou pelo sistema financeiro dos Estados Unidos, utilizando bancos em Nova York e comunicações eletrônicas que cruzaram território americano. Esse vínculo permitiu que os EUA reivindicassem competência para investigar e processar dirigentes estrangeiros, mesmo que os fatos tivessem ocorrido fora do país.

Dias após a operação, Blatter anunciou sua renúncia à presidência da FIFA, encerrando um mandato que durava desde 1998. Posteriormente, ele passou a ser alvo de investigações na Suíça por suspeita de gestão desleal, abuso de confiança e pelo controverso pagamento de 2 milhões de francos suíços ao ex-presidente da UEFA, Michel Platini, realizado em 2011 por serviços de consultoria prestados anos antes. Embora ambos tenham negado irregularidades, foram suspensos do futebol pela comissão de ética da FIFA e enfrentaram uma longa batalha judicial. Em processos criminais na Suíça, Blatter e Platini acabaram absolvidos, mas a crise institucional já havia alterado profundamente a estrutura de poder da entidade.

A ofensiva norte-americana não se limitou às prisões de 2015. Nos anos seguintes, dezenas de dirigentes esportivos da América do Sul, América do Norte e Caribe foram indiciados ou condenados. Diversos executivos fecharam acordos de colaboração com o Departamento de Justiça, enquanto empresas de marketing esportivo admitiram o pagamento sistemático de propinas para obter contratos de torneios organizados pela FIFA e por confederações continentais. A investigação ficou conhecida como "FIFAGate" e é considerada uma das maiores operações anticorrupção da história do esporte.

Em fevereiro de 2016, o suíço Gianni Infantino, até então secretário-geral da UEFA, foi eleito presidente da FIFA com o discurso de reconstruir a credibilidade da entidade após o escândalo de corrupção. Prometendo transparência, reformas administrativas e uma nova política de governança, Infantino promoveu mudanças internas, ampliou os programas de compliance e fortaleceu mecanismos de controle financeiro. Paralelamente, porém, seu mandato passou a ser marcado pela concentração de poderes na presidência da FIFA e por uma relação cada vez mais próxima com chefes de Estado, especialmente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A proximidade entre Infantino e Trump tornou-se especialmente visível durante os preparativos para a Copa do Mundo de 2026, organizada por Estados Unidos, Canadá e México. Os dois passaram a dividir diversos eventos oficiais, reuniões e cerimônias públicas. Em dezembro de 2025, durante o sorteio da Copa do Mundo realizado em Washington, Infantino entregou pessoalmente a Trump o inédito "Prêmio da Paz da FIFA", criado pela entidade para homenagear pessoas que, segundo a organização, contribuíram para a promoção da paz e da união entre os povos. A escolha provocou críticas de organizações ligadas à governança esportiva e aos direitos humanos, que questionaram tanto os critérios da premiação quanto sua compatibilidade com o princípio de neutralidade política previsto no estatuto da FIFA.

A relação entre ambos voltou ao centro das atenções durante a Copa do Mundo de 2026. Após a expulsão do atacante norte-americano Folarin Balogun, Donald Trump revelou ter telefonado diretamente para Infantino pedindo que a punição fosse revista. Pouco depois, o Comitê Disciplinar da FIFA suspendeu a aplicação automática do cartão vermelho, permitindo que o jogador atuasse nas oitavas de final contra a Bélgica. A decisão gerou forte repercussão internacional por representar uma medida extremamente incomum. Infantino confirmou ter recebido a ligação do presidente americano, mas afirmou que o Comitê Disciplinar atua de forma independente e que nenhuma autoridade política interfere em suas decisões. Ainda assim, o episódio alimentou novos questionamentos sobre a independência da FIFA e sobre a influência política exercida por governos, especialmente o dos Estados Unidos, sobre a principal entidade do futebol mundial.