Depois de tentarem uma reaproximação durante a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro (PL) para conviverem na mansão alugada pelo partido no condomínio Solar de Brasília, Carlos e Michelle Bolsonaro voltaram a se desentender. O novo conflito gira em torno da disputa por uma vaga ao Senado por Santa Catarina nas eleições de 2026.
A briga foi revelada por Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, que vem expondo divergências internas da família Bolsonaro enquanto se alinha ao Centrão, especialmente em apoio ao nome de Tarcísio de Freitas (Republicanos) como futuro presidenciável.
Em entrevista à coluna de Bela Megale (publicada nesta segunda, 6), Valdemar confirmou que há uma disputa entre Carlos e Michelle pela indicação ao Senado em Santa Catarina. Carlos, vereador no Rio de Janeiro há sete mandatos, foi lançado pelo pai como pré-candidato ao Senado pelo estado e já tem feito movimentações locais.
Para viabilizar a candidatura do filho, Bolsonaro descartou o nome da deputada federal Carol de Toni (PL-SC), aliada de longa data da família e apoiada por Michelle. Como presidente do PL Mulher, Michelle aposta na candidatura de Carol como uma forma de atrair o eleitorado feminino.
Apesar de Santa Catarina eleger dois senadores em 2026, Valdemar da Costa Neto já se comprometeu com o nome de Esperidião Amin (PP), aliado histórico do Centrão. A tentativa de acomodar todos no mesmo palanque, segundo ele, pode passar pela indicação de Carol como vice na chapa de reeleição do governador Jorginho Mello (PL).
“A Carol é querida pela Michelle e por todos nós, mas o Esperidião também quer a vaga e o Bolsonaro já decidiu que o Carlos vai por Santa Catarina. Cogitamos que ela seja vice do Jorginho”, afirmou Costa Neto.
Conflito antigo
A rixa entre Michelle e Carlos Bolsonaro é antiga e se intensificou após as eleições de 2018. O ponto de ruptura mais visível ocorreu quando Michelle criticou publicamente as lives presidenciais — organizadas por Carlos — por falta de acessibilidade.
"LIVE QUE NÃO TEM ACESSIBILIDADE @jairmessiasbolsonaro não merece curtida. Respeito pela comunidade surda", escreveu ela nas redes sociais.
Com o aumento da pressão do STF sobre o “gabinete do ódio”, Carlos passou a morar no Palácio da Alvorada, medida que desagradou profundamente Michelle. O convívio forçado por cerca de seis meses deteriorou ainda mais a relação entre os dois.
Mesmo assim, durante a campanha eleitoral, Bolsonaro costurou uma trégua na família para evitar prejuízos à imagem de “família tradicional”, central no discurso voltado ao eleitorado evangélico. A paz, no entanto, foi momentânea.
Michelle chegou a ignorar Carlos em uma postagem de Dia dos Pais e resistiu a entrar na campanha, o que irritou o "02". Já nos momentos decisivos, Carlos assumiu papel central, enquanto Michelle manteve uma agenda própria, distante do marido.
Após a derrota nas urnas em 2022, os conflitos ganharam novos contornos: Michelle e Jair deixaram de se seguir nas redes sociais e Carlos, que gerenciava os perfis do pai, deixou de seguir a madrasta. Em resposta, Michelle publicou uma nota negando qualquer crise conjugal, mas alfinetando o enteado:
“Eu e meu esposo seguimos firmes, unidos… Mas ele (Carlos) não é quem administra o Instagram do Jair”, afirmou.
Em março de 2023, Michelle fez um gesto público de reconciliação com os filhos de Bolsonaro — Flávio, Carlos e Jair Renan — no ato da Paulista, chamando-os de “os meninos do meu marido”. Apesar disso, destacou a ausência de Eduardo, que havia se mudado para os EUA.
O vídeo foi publicado por Carlos em seu Instagram, mas com destaque apenas para Eduardo — evidenciando que a relação com Michelle ainda era instável.
A “família tradicional” em xeque
O discurso bolsonarista de "Deus, Pátria, Família e Liberdade" contrasta com os conflitos internos do clã. Jair Bolsonaro teve cinco filhos com três mulheres diferentes, e o ambiente familiar é marcado por desavenças.
Em entrevista a Alexandre Garcia, Michelle admitiu que não mantém contato com Carlos:
“A gente não se fala. Ele tem o gênio dele, eu tenho o meu. Não desejo mal a ele, mas não quero conviver... E a Bíblia me dá esse respaldo.”
Já Jair Renan, filho de Ana Cristina Valle (ex-mulher de Bolsonaro), também viveu conflitos com Michelle e os irmãos. Quando adolescente, foi expulso de casa após conflitos com a madrasta, e Bolsonaro precisou alugar um apartamento para o filho morar sozinho, como relatou um ex-funcionário da família.
Michelle e Jair Renan também trocaram farpas públicas. A ex-primeira-dama criticou nas redes candidaturas que usavam o nome “Bolsonaro” e, sem citar Ana Cristina, afirmou que só apoiava seu irmão Eduardo Torres para deputado distrital.
Jair Renan respondeu em defesa da mãe:
“Minha mãe tem direito ao nome Bolsonaro. Foi casada com meu pai por 16 anos. Sou fruto dessa união.”
Crise no Alvorada: bebidas e brigas
Outro episódio revelador do ambiente conturbado foi o episódio da adega do Alvorada. Segundo o portal Metrópoles, Michelle mandou trancar a adega após Jair Renan pegar bebidas escondido. Em resposta, Bolsonaro, enfurecido, arrombou a porta da adega com um chute para pegar vinho e servir a um visitante.