Uma crise prorrogada. Assim pode ser vista a vitória de Michel Temer ontem na Câmara dos Deputados, que rejeitou, por 263 votos a 227 e 2 abstenções, a autorização para o Supremo Tribunal Federal (STF) abrir processo criminal contra ele por crime de corrupção passiva, seguindo parecer da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). Esta foi a primeira vez que a Câmara dos Deputados votou uma solicitação para instauração de processo contra um presidente da República. Com a decisão, o STF não poderá analisar a denúncia contra Temer apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no final de junho. O presidente só poderá responder judicialmente após o término do mandato.
Temer sacramenta, assim, a instalação do que podemos chamar de governo zumbi, expressão muito bem usada pelo colunista da Folha de São Paulo, Bernardo Mello Franco, ainda no mês de maio, quando Temer declarou que não renunciaria. "Flagrado numa trama de corrupção e obstrução da Justiça, ele vê sua autoridade se esfarelar em praça pública. Mesmo assim, insiste em se agarrar à cadeira. (...) Temer ouviu de vários aliados que chegou ao fim da linha, mas decidiu resistir, mesmo que seja na condição de zumbi."
Nem vencidos, nem vencedores. Esse é o verdadeiro saldo da votação de ontem. Para o governo, não houve motivo para qualquer comemoração, com um saldo final de votos bem menor do que eles queriam. Os otimistas falavam em 290 votos a favor de Temer. Os mais céticos, 250. Ou seja, ficaram um pouquinho acima. Temer mostrou força para o mercado e para o Judiciário. Foi um duro golpe no judiciário, especialmente em Janot. Duro golpe na ala mais radical da esquerda (como PSOL e PCdoB) e nem tanto para o PT, que tem interesse em manter Temer no poder (sangrando até 2018) em vez de fortalecer o DEM com Rodrigo Maia, que assumiria.
O governo se mostrou forte para votações que exigem maioria simples mas, pensando em votação das reformas, como a PEC da Reforma Previdenciária - que exige votos da maioria absoluta para serem aprovadas - foi um resultado bem abaixo do esperado, e isso ficou claro com o desespero em conquistar votos de última hora, com a presença de ministros nos corredores da Câmara dos Deputados e a explícita negociação de emendas parlamentares.
Temer perdeu exatos 104 votos da base de apoio se comparado com o resultado da votação do impeachment. Como bem definiu o editorial de O Globo desta quarta-feira, 03, "a votação de ontem foi de fundo político, pode-se argumentar, mas a vitória de Temer transmite para a sociedade a ideia de que pesos e medidas mudam a depender de quem estiver em questão". Consagra-se um governo zumbi e com 95% de reprovação.