O anúncio feito por Donald Trump, na última sexta-feira (11), sobre a aplicação de uma sobretaxa de 50% a produtos brasileiros repercutiu intensamente no Brasil e no exterior. A medida, justificada por Trump como resposta à “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro e à censura nas redes sociais, causou desconforto político, mas não deve interferir diretamente no julgamento do ex-presidente no Supremo Tribunal Federal (STF). No entanto, poderá influenciar o inquérito que envolve seu filho, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), investigado por tentativa de obstrução das investigações e por atuar internacionalmente contra instituições brasileiras.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) suspeita que Eduardo tenha articulado com figuras do governo Trump para atacar o Supremo, a Polícia Federal e o próprio Ministério Público. A conduta, já sob apuração no inquérito conduzido por Alexandre de Moraes, ganhou novos contornos com a carta divulgada por Eduardo e pelo ex-apresentador Paulo Figueiredo, na qual pedem moderação nas reações ao tarifaço e insinuam que ele é fruto de negociações diretas com aliados de Trump. No mesmo documento, ameaçam com novas sanções contra Moraes e sugerem que as tarifas só serão revistas com a concessão de uma "anistia ampla, geral e irrestrita" aos investigados do 8 de janeiro.
A articulação do deputado tem sido tratada com apreensão por ministros do STF, que veem nos seus movimentos uma tentativa explícita de interferência nos processos que envolvem sua família. Moraes já havia incluído como prova no inquérito um vídeo publicado por Eduardo em que ele ataca o Judiciário. Agora, com a medida de Trump sendo usada como instrumento político interno, crescem os indícios de uma atuação coordenada para sabotar investigações em curso.
Internamente, a situação de Eduardo Bolsonaro também se complica. Sua licença não remunerada por “interesse particular” se encerra no próximo domingo (20). Caso não reassuma o mandato na Câmara dos Deputados, poderá enfrentar processo por quebra de decoro parlamentar, uma vez que o regimento interno da Casa determina que a ausência injustificada em mais de um terço das sessões pode levar à cassação. O precedente mais recente foi o do deputado Chiquinho Brazão (sem partido-RJ), cassado após prisão e ausências prolongadas.
Paralelamente, o deputado é alvo de um pedido de prisão preventiva feito pelo líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ). A solicitação, encaminhada ao ministro Alexandre de Moraes, argumenta que há elementos suficientes para concluir que Eduardo age de forma contínua e deliberada para prejudicar as instituições democráticas brasileiras, em articulação com atores internacionais. O parlamentar petista alega que os atos do filho de Bolsonaro configuram coação no curso do processo, obstrução de investigação e ameaça à soberania nacional.
Mesmo com o agravamento da crise diplomática e política, o Supremo afirma que o julgamento de Jair Bolsonaro seguirá conforme o cronograma, com a expectativa de ser concluído até o fim de 2025. A prioridade, segundo ministros da Corte, é evitar que o processo interfira no calendário eleitoral de 2026.