O governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), presta depoimento nesta sexta-feira (30) ao Supremo Tribunal Federal (STF) como testemunha de defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro na ação penal que apura uma tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. A oitiva será realizada por videoconferência, a partir das 8h, e integra a fase de instrução do processo, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.
O depoimento ocorre em meio a especulações sobre a possível candidatura de Tarcísio à Presidência da República em 2026, em substituição a Bolsonaro no campo da extrema direita. Embora o governador não seja investigado, sua participação como testemunha pode ter repercussões políticas e jurídicas relevantes, especialmente pelo histórico de encontros com Bolsonaro durante o período investigado.
Segundo a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), Tarcísio esteve com o ex-presidente no Palácio da Alvorada em pelo menos duas datas consideradas estratégicas: 19 de novembro e 11 de dezembro de 2022. Os registros dessas reuniões constam dos autos como momentos-chave em que aliados de Bolsonaro discutiam formas de impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva.
No dia 19 de novembro, além de Tarcísio, participou do encontro Filipe Martins, ex-assessor especial da Presidência para assuntos internacionais e apontado como um dos principais articuladores da chamada "minuta do golpe". O documento, encontrado pela PF na casa do ex-ministro Anderson Torres, previa medidas de exceção, como a decretação de estado de defesa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a anulação do resultado das eleições.
A reunião de 11 de dezembro também ocorreu em um momento de tensão, quando, de acordo com a PF, integrantes do governo e militares discutiam estratégias para manter Bolsonaro no poder, com apoio logístico das Forças Armadas.
Entre os pontos que devem ser abordados no depoimento de Tarcísio estão o conteúdo de suas conversas com Bolsonaro após o segundo turno, eventuais contatos com militares envolvidos nas articulações golpistas, conhecimento sobre a minuta encontrada com Torres e sua percepção sobre o comportamento de Bolsonaro após a derrota eleitoral.
Apesar de ainda ser tratado como aliado, Tarcísio tem enfrentado crescente desconfiança no núcleo bolsonarista. O distanciamento de figuras-chave do movimento e a tentativa de adotar um tom mais moderado vêm gerando ruídos entre aliados do ex-presidente. A crítica pública feita pelo pastor Silas Malafaia, que o chamou de "urubu", expôs um racha interno e alimentou suspeitas de que o governador paulista estaria preparando terreno para se lançar candidato ao Planalto.
A expectativa da defesa de Bolsonaro é que Tarcísio reafirme em juízo que não teve conhecimento de qualquer plano golpista, que Bolsonaro respeitou o resultado das urnas e que os encontros no Alvorada tinham caráter institucional ou pessoal, e não conspiratório. Em novembro de 2023, ao comentar o indiciamento do ex-presidente, Tarcísio afirmou em rede social: "Há uma narrativa disseminada contra o presidente Jair Bolsonaro e que carece de provas".
O depoimento será avaliado pela equipe do ministro Alexandre de Moraes e pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, que devem cruzar as declarações com outras testemunhas e provas já colhidas pela PF. A consistência dos relatos será determinante para os próximos desdobramentos do caso.