A relação entre os militares e a Presidência da República no Brasil sempre foi marcada por tensões, autoritarismos e tentativas de controle do poder civil. Desde a Proclamação da República, em 1889, quando o marechal Deodoro da Fonseca depôs Dom Pedro II, a farda esteve presente como força de imposição, raramente como projeto democrático. O gesto fundacional da República nasceu sem consulta popular, fruto de um golpe de quartel, e deixou como herança uma tradição de tutela militar sobre a política.
Ditadura de 1964 a 1985: o silêncio imposto pela farda
O ponto mais dramático dessa história ocorreu com o golpe de 1964, quando os militares depuseram João Goulart e instauraram um regime ditatorial que perdurou por 21 anos. Sob o discurso de “defesa da pátria” e “combate ao comunismo”, os generais-presidentes suspenderam direitos, cassaram mandatos, perseguiram opositores e censuraram a imprensa. O aparato repressivo, sustentado pelo DOI-CODI e pelo SNI, deixou um rastro de mortes, torturas e desaparecimentos.
No campo econômico, a ditadura promoveu um crescimento artificial baseado em endividamento externo e concentração de renda, deixando uma herança de crise e desigualdade social. Enquanto a propaganda oficial falava em “milagre econômico”, a realidade para a maioria da população era de arrocho salarial e supressão de liberdades. O fim do regime, em 1985, só veio após forte pressão da sociedade civil, que exigia o retorno da democracia por meio de mobilizações como a campanha das Diretas Já.
O retorno de um militar: Bolsonaro no Planalto
Décadas depois, a eleição de Jair Bolsonaro (PL) recolocou um militar reformado na Presidência. Embora chegasse ao poder pelo voto, seu governo carregou os mesmos traços autoritários herdados do período ditatorial: desrespeito às instituições, ataques à imprensa, confronto com o Supremo Tribunal Federal e flerte constante com soluções de força. Bolsonaro promoveu uma espécie de “ocupação militar” do Estado, nomeando milhares de oficiais da ativa e da reserva para cargos civis, numa distorção que corroeu a fronteira entre poder civil e poder fardado.
Seu discurso saudosista da ditadura e a proximidade com setores radicais das Forças Armadas reforçaram a percepção de que a democracia brasileira ainda convive com a sombra de 1964. O desfecho de seu governo, marcado pelas investigações sobre tentativa de golpe e pelo 8 de Janeiro de 2023, apenas confirmou os riscos de se entregar a condução do país a quem despreza os limites democráticos.
Tarcísio de Freitas: a nova aposta fardada
Agora, surge no cenário nacional a candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos), atual governador de São Paulo e ex-ministro de Bolsonaro. Militar de formação, Tarcísio se apresenta como gestor técnico, mas sua trajetória revela fidelidade a projetos de poder autoritários e ultraliberais. No governo paulista, privilegia a lógica privatista, com tentativas de entregar setores estratégicos à iniciativa privada, além de manter o discurso alinhado ao bolsonarismo.
Sua imagem de “técnico eficiente” esconde um passado vinculado ao mesmo espírito de tutela militar que sempre rondou a República. Como Bolsonaro, Tarcísio tenta se vender como “homem de ordem”, mas carrega consigo a herança de uma farda que historicamente significou supressão de direitos e distanciamento da soberania popular.
A democracia sob ameaça constante
A história brasileira demonstra que cada vez que os militares se aproximam do poder, a democracia sai enfraquecida. Seja em 1889, em 1964 ou em 2018, o resultado é o mesmo: imposição, autoritarismo e ruptura do pacto civil. Diante da possível candidatura de Tarcísio de Freitas à Presidência, é inevitável questionar: o Brasil voltará a permitir que a farda determine os rumos do país?