Tarcísio ameaça Centrão e condiciona candidatura à blindagem dos bilionários na MP do IOF

Governador condiciona candidatura à blindagem de super-ricos e articula com direita para minar governo Lula até 2026.

Enquanto tenta blindar o Primeiro Comando da Capital (PCC) nas investigações sobre as bebidas adulteradas com metanol em São Paulo, o governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) escalou sua atuação política em Brasília com ameaças diretas ao Centrão. O recado: se a Medida Provisória 1303/25, que prevê taxação de bilionários, bancos e casas de apostas (bets), avançasse no Congresso, ele não encamparia uma candidatura "anti-Lula" em 2026 — desejo da chamada "terceira via" e da direita liberal.

Nos bastidores, segundo informações obtidas pela Revista Fórum, Tarcísio teve um verdadeiro chilique na véspera da votação em plenário, ocorrida na noite de quarta-feira (8), quando a MP foi retirada de pauta após um placar simbólico de 251 votos favoráveis contra 193 contrários — um recuo articulado nos bastidores para evitar sua aprovação.

Na comissão mista que analisou a medida na terça-feira (7), sob relatoria do deputado Carlos Zarattini (PT-SP), o governador paulista já havia feito ameaças ao Centrão, afirmando que não seria candidato à Presidência caso a proposta que ele chamou de “MP do IOF” fosse aprovada.

De acordo com fontes da Fórum, Tarcísio agiu em nome da Faria Lima e foi direto: “Não seguraremos o Lula se vocês continuarem dando as condições para ele se reeleger”. A frase foi dita a aliados de peso do Centrão.

A articulação contra a MP contou com o envolvimento dos presidentes do PP e do União Brasil, Ciro Nogueira e Antonio Rueda, respectivamente, e teve ainda o apoio do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Gilberto Kassab (PSD), aliado próximo de Tarcísio e seu secretário de Governo, e Marcos Pereira (Republicanos), presidente do partido do governador, também participaram das negociações.

A estratégia surtiu efeito. A proposta passou na comissão mista por apenas um voto: 13 a 12. A ameaça de repetir o placar no plenário fez o governo recuar da votação no dia seguinte.

Esse movimento faz parte de uma engrenagem fiscal e política montada pelo centrão e aliados para minar a candidatura de Lula em 2026. O objetivo: impedir que o presidente capitalize o discurso de que isentou a população de baixa renda do Imposto de Renda e taxou os super-ricos — uma bandeira popular que já entrou no radar da campanha petista.

O ponto de partida dessa ofensiva foi o projeto de lei relatado por Arthur Lira que isenta do IR quem ganha até R$ 5 mil. A proposta foi aprovada por unanimidade na Câmara e celebrada por Lula como um "marco histórico". Para a oposição, no entanto, o custo fiscal dessa medida seria uma bomba para 2026, ano da eleição presidencial.

Diante da repercussão negativa da chamada "PEC da Bandidagem", que levou manifestantes às ruas recentemente, o Centrão decidiu manter a isenção do IR para os mais pobres, mas manobrar nos bastidores para impedir a taxação dos ricos via MP do IOF. A narrativa construída tenta colar no governo a pecha de que ele "aumenta impostos", quando na prática a proposta buscava justiça tributária.

Os cálculos apontam que a não aprovação da MP pode gerar um rombo de até R$ 45 bilhões no orçamento de 2026, o que inviabilizaria projetos sociais estratégicos do governo Lula, como a tarifa zero no transporte público. A escassez fiscal, esperam os articuladores, forçaria cortes em áreas como saúde e educação — o que agrada a Faria Lima e parte da mídia liberal. Eles também pressionam o Planalto a frear reajustes no salário mínimo e nas aposentadorias.

Nesta quinta-feira (9), caberá a Ciro Nogueira entregar a "fatura" ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Autorizado por Alexandre de Moraes (STF) a visitar Bolsonaro em sua mansão, onde cumpre prisão domiciliar, Nogueira levará um recado claro: o ex-presidente deve desistir de lançar qualquer nome do clã — especialmente Eduardo Bolsonaro (PL-SP) — à Presidência em 2026.

Em troca, o presidente do PP quer garantir que Bolsonaro ungirá Tarcísio como o candidato único da direita. Como contrapartida, Nogueira promete ao ex-presidente que ele não será levado à Papuda — a ideia é aprovar o PL da Dosimetria e, caso Tarcísio seja eleito, articular um indulto que o livre da condenação por tentativa de golpe de Estado.

Mais do que uma candidatura, está em jogo um projeto de poder amarrado a pautas-bomba, chantagens institucionais e uma tentativa explícita de sabotar o governo Lula até as eleições de 2026.