Confrontado por dados de opinião e por decisões judiciais recentes, o discurso do líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, tropeça em contradições verificáveis — da “anistia” ao 8 de Janeiro às promessas de isenção ampla de Imposto de Renda sem indicar de onde viria o dinheiro.
1) “Não houve golpe”: narrativa contra provas e contra a opinião pública
Na GloboNews, Sóstenes voltou a defender a anistia e repetiu o bordão segundo o qual “não houve golpe”; chegou a dizer que, se houvesse, “esta Casa [a Câmara] estava fechada”. A fala contrasta com o próprio movimento político do PL para pautar uma anistia após o julgamento de Jair Bolsonaro no STF — isto é, age como se não houvesse golpe e, ao mesmo tempo, luta por perdão penal dos envolvidos.
Além disso, a maioria do país rejeita a anistia. Levantamento Genial/Quaest de 6 de abril indica que 56% defendem manter presos os envolvidos no 8 de Janeiro; apenas 34% são pela soltura em algum grau. Ou seja, o “clamor social” invocado pelo PL não aparece nos números.
2) “Débora do batom” não é argumento para anistia — e tampouco “não depredou”
Sóstenes usou o caso de Débora Rodrigues, apelidada de “Débora do batom”, como símbolo de suposta injustiça. Factualmente, o STF a condenou a 14 anos por cinco crimes (entre eles golpe de Estado e deterioração de patrimônio tombado), por escrever “Perdeu, mané” na estátua A Justiça durante os ataques. Não é verdadeiro dizer que ela “nada depredou”: houve condenação por dano qualificado e deterioração de patrimônio. Usar esse caso como estandarte para uma anistia geral distorce o que foi julgado.
3) IR até R$ 10 mil “sem compensação”: populismo fiscal
No tema tributário, Sóstenes anunciou a isenção de IR para quem ganha até R$ 10 mil. A proposta surgiu sem detalhar compensações — ponto reconhecido inclusive por reportagens que cobriram a ofensiva do PL. Em paralelo, quando avançou no Congresso um texto do governo que previa isenção até R$ 5 mil com contrapartidas (tributação mínima de altas rendas e de dividendos acima de determinados patamares), o PL tentou retirar a taxação de dividendos — justamente uma das principais fontes de compensação. Discurso pró-contribuinte; prática anti-equilíbrio fiscal.
4) “24 aumentos de impostos”: conta política, realidade mais complexa
Sóstenes insiste no número de “24 aumentos de impostos” sob Lula. Trata-se de uma contagem política divulgada por frentes e veículos de oposição que misturam reversão de benefícios temporários, medidas derrubadas e outras ainda em tramitação. Um levantamento da CNN mostra que o quadro é heterogêneo: há reonerações, mudanças decididas pelo STF, tentativas de encerrar programas (Perse) depois renegociadas e ajustes no Carf; não é correto apresentar tudo como “24 aumentos aprovados” e ponto.
5) O objetivo real da anistia
Não há mistério sobre a finalidade política: Eduardo Bolsonaro tem cobrado expressamente que o Congresso aprove anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e vinculou a pauta até a pressões externas. O PL acompanha essa linha no plenário e nas redes.