A presença de uma comitiva de senadores brasileiros na prisão de Rebibbia, em Roma, para visitar Carla Zambelli (PL-SP), não pode ser tratada como um gesto humanitário. Ao contrário do discurso ensaiado na saída da penitenciária, o encontro de Flávio Bolsonaro, Magno Malta, Eduardo Girão e Damares Alves com a ex-deputada não teve como objetivo prestar solidariedade. Teve como missão principal garantir que Zambelli permaneça em silêncio.
Melhor tê-la calada atrás das grades italianas do que correndo o risco de abrir o bocão em uma delação premiada no Brasil. Afinal, o que Zambelli sabe — e o que poderia revelar sobre os bastidores do bolsonarismo — representa uma ameaça real para aqueles que hoje posam como seus defensores.
Flávio Bolsonaro foi categórico ao sair da prisão: disse que Zambelli é “perseguida política” e que não teve “processo justo” no Brasil. A narrativa de vítima é conveniente. Enquanto isso, Damares Alves dramatizou, alegando temer pela vida da ex-deputada. Tudo cuidadosamente roteirizado para deslocar a discussão da essência do problema: a condenação da bolsonarista pelo STF por invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça e falsificação de documentos.
Não se trata de afeto, mas de estratégia. Quando a verdade ameaça vir à tona, o desespero bate à porta dos cúmplices. Os senadores que correram até Roma sabem que uma delação de Zambelli poderia comprometer todo o círculo do bolsonarismo, incluindo aqueles que hoje a defendem.
No sábado, o grupo ainda aproveita a viagem para participar de um evento intitulado “Brasil — Democracia ou Ditadura?”, que tem entre os convidados Eduardo Bolsonaro e o advogado de Zambelli. O título do encontro, mais uma vez, revela a tentativa de inverter papéis: colocar golpistas como vítimas e transformar criminosos condenados em mártires políticos.
Carla Zambelli, que fugiu do Brasil alegando cidadania italiana, foi condenada junto com o hacker Walter Delgatti. Ambos responderam por invasão de dispositivo informático e falsidade ideológica. Não há perseguição política: há sentença judicial. O que se viu em Roma foi a encenação de um teatro para consumo da militância, mas com um objetivo muito claro nos bastidores: manter Zambelli sob controle e, sobretudo, em silêncio.