Sem agenda, a extrema direita faz da Segurança Pública seu território de batalha

Mas o governo Lula já tinha apresentado proposta para área e foi boicotado exatamente pela extrema direita

A extrema direita brasileira entrou em 2025 enfrentando um desgaste visível em todas as frentes discursivas que sustentaram seu projeto político nos últimos anos. De temas econômicos e institucionais à política externa e à segurança pública, o campo conservador radical já não consegue impor sua agenda nem mobilizar a opinião pública como antes. A hegemonia narrativa que um dia lhe pareceu garantida se fragmenta, enquanto o governo Lula consolida resultados concretos que desmontam previsões catastrofistas.

Economia: os fatos superaram o alarmismo

Durante os dois primeiros anos do governo Lula, lideranças da extrema direita insistiram que o país enfrentaria descontrole inflacionário, fuga de investimentos e deterioração das contas públicas. Apostaram que a política monetária restritiva do Banco Central inviabilizaria qualquer recuperação econômica. Não foi o que ocorreu.

A inflação permanece sob controle, dentro da meta. O desemprego atingiu o menor patamar da história recente. A valorização do real frente ao dólar surpreendeu analistas que circulam entre consultorias e think tanks conservadores. A retomada do investimento industrial também virou indicador concreto, não promessa.

Até o debate sobre taxação do PIX — que a direita tentou converter em arma de desgaste — acabou se voltando contra ela. O governo conseguiu comunicar que sua agenda tributária mira os muito ricos, enquanto os setores conservadores defenderam isenções para as altas rendas. O contraste tornou-se evidente: de um lado, progressividade fiscal; de outro, privilégio de elite.

Política institucional: descolamento e isolamento

No campo político, a extrema direita também perdeu terreno. Ministros ligados a partidos como União Brasil e Progressistas mantiveram-se alinhados ao governo, mesmo sob pressão de suas legendas. Episódios sucessivos demonstraram que, apesar da retórica de oposição desses partidos no Congresso, a coalizão lulista segue operando com estabilidade.

No campo oposicionista, o cenário é inverso: multiplicação de pré-candidaturas, ausência de projeto e disputa interna. Eduardo Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Ratinho Jr., Romeu Zema e Ronaldo Caiado movimentam-se como se cada um fosse a “solução” pessoal do campo conservador — todos mirando 2026, todos competindo entre si. Falta unidade; sobra ambição.

Relações internacionais: isolacionismo não prosperou

Na política externa, o desgaste é ainda mais nítido. Eduardo Bolsonaro, radicado nos Estados Unidos, atuou para estimular sanções contra o Brasil, numa aliança tácita com governadores de direita. Foi uma postura vista, por amplos setores sociais e econômicos, como um ato de sabotagem nacional.

Ao mesmo tempo, Lula recompôs relações diretas com Washington. A reunião com Donald Trump, carregada de simbolismo, ocorreu em tom diplomático e produtivo: não houve menção à defesa de Bolsonaro, e há sinais concretos de revisão de tarifas comerciais impostas pelos EUA contra o Brasil. Concretamente, o governo petista se move em direção ao pragmatismo, enquanto a extrema direita se apega ao ressentimento.

Segurança pública: o último refúgio estratégico

Diante da derrota narrativa em economia, política e diplomacia, a extrema direita tenta agora deslocar o debate para a segurança pública. A megaoperação no Rio de Janeiro, que resultou na morte de mais de 120 pessoas, foi imediatamente transformada em palco político. O governador Cláudio Castro foi saudado por seus pares de Mato Grosso, Goiás, Paraná e Santa Catarina, que enxergam no discurso da “guerra total” ao crime uma chance de reorganizar uma base social pela via do medo.

Esse movimento é calculado: ao acionar o tema da violência urbana, pretendem construir a atmosfera de caos que lhes faltou nos demais campos de debate. É, essencialmente, uma tentativa de substituir dados por choque, diálogo por choque moral, e política pública por excepcionalismo armado.

A extrema direita perdeu o debate econômico, perdeu o debate sobre política institucional, perdeu o debate sobre o papel do Brasil no mundo. Agora, aposta em um discurso bélico que aprofunda desigualdades, militariza territórios pobres e produz tragédias sociais mascaradas por termos como “operações de segurança”.

Ao investir nesse caminho, esse campo político revela que não lhe restam propostas: apenas o uso calculado do medo como ferramenta eleitoral.

O país enfrenta, portanto, uma disputa clara: entre um projeto que se sustenta em resultados concretos e outro que tenta sobreviver por meio da fabricação permanente de inimigos internos.