Reflexões de um cidadão: um comentário aos meus críticos e obstáculos diversos

 “A vida dos vivos é regida por filósofos mortos” (Augusto Comte)

Sempre achei o Guilherme Boulos, atual ministro-chefe da Secretaria- Geral da Presidência da República, um cidadão bem peculiar ao posto que também muito sagaz. Você pode não gostar do Boulos como um dia eu não gostei na sua atuação nos movimentos sociais, mas é inegável seu pensamento rápido, autenticidade e com uma personalidade que no mais das vezes coloca-nos em reflexões pertinentes. Acompanhei sua entrevista ao podcast “Três irmãos”. Muitas falas e muitas declarações. Entre elas, uma que gerou bastante repercussão por expor coerentemente um dilema vivido internamente na esquerda brasileira: a divergência entre o purismo ideológico e a política feita a partir das condições reais de atuação. Se concordamos que a teoria é muitas vezes diferente da prática, também concordaremos que o que queremos e pensamos muitas vezes não é o que podemos fazer ou ter. Boulos foi categórico quando disse, “fazer política significa enfrentar a contradição a partir da realidade”. Julgam o Lula sem saber o que ele enfrenta. Crucificam o Lula sem observar o Congresso e seus parlamentares que sugam através de negociatas por cima negociatas. Pasmem. Muitos de esquerda também fazem isso.

Estive no ano de 2025 participando da minha primeira formação política dentro dos quadros do Partido dos Trabalhadores, PT, em minha cidade natal, Picos-PI, e lembro do saudoso Marcelino Fonteles, secretário de formação política da executiva estadual do partido, dar-nos uma importante mensagem acerca de trazer simpatizantes do Lula e o PT ao pertencimento dos quadros da sigla e os transformar em filiados, por exemplo. Essa frase me encheu de energia. Filiei-me ao partido há seis meses à época desse encontro de formação. Uma mistura de alegria e força invadiram-me. Eu agora poderia fazer morada e me expressar no lugar onde eu sempre estive inclinado a estar, mas que por circunstâncias diversas sempre me impediram.

Tenho hoje 26 anos e desde meus 15 anos sempre gostei de política. Fazer uma retrospectiva detalhada desse período para agora seria uma tarefa complicada, seriam páginas e mais páginas de relato. Farei recortes temporais, pois acho necessário para combater até mesmo minha própria prolixidade. Continuando, entre as muitas idas e vindas que a vida me ofertou nos meandros da política, portas se abriram e outras se fecharam sem que ao menos eu batesse nela. Sem ainda entender bem o que defender e o que criticar, pus-me em grupos políticos e linhas de pensamento que primeiro me abriram oportunidades. Esse sentimento de pertencimento soa atraente. Não faria diferente. Foi necessário para saber exatamente o que sou e o que quero daqui em diante. Muitos entram e muitos saem de algo por motivos adversos. Em certa parte, eu iniciei minha caminhada. Todavia, como bom caminhador, ainda não parei de andar com a certeza fulcral daquilo que me hoje faz sentido.

Em Picos, entrei na administração pública aos 21 anos, e entrar na política nessa idade sem a devida proteção ou com bons conselhos te faz encarar muitos julgamentos e cancelamentos. Como diz um grande amigo que tenho, quando você acerta, ninguém observa, agora experimente errar um pouco, mesmo que movido pela ignorância sem preparo e todos vestirão a camisa do demônio acusador, ao invés do anjo consolador. Assim foi.

Dos meus 21 anos até os meus 23 anos trabalhei num CRAS de minha cidade e vivi na prática o que nenhum estagiário em Psicologia, o curso que escolhi como futura profissão, viveu se somado todos os estágios em clínica e políticas públicas do curso juntos. Tive contato com outros setores da administração pública. Passei um pouco mais de um ano sendo Secretário de Juventude e coordenador municipal de direitos humanos da mesma cidade, sendo o mais jovem cidadão a ocupar tal cargo sem contar minha atuação na coordenação municipal do programa “Bolsa Família” no que tange os assuntos ligados a Secretária de Educação. Galguei a patamares com muito custo pessoal. Sem muito apoio e não vindo de uma família com histórico de vida política, desenvolvi o melhor trabalho que eu poderia fazer. Faltava as aulas da Universidade para dar de conta, ainda que no período noturno, às demandas que surgiam. Não julgo. Quem está na chuva é para se molhar, diz o ditado. Enfrentei obstáculos e negociatas em cima de meu nome, e aguentei tanto quanto pude pela honra à minha consciência. Fui subjugado de variadas maneiras dentro de uma gestão fadada a derrota no período eleitoral, mas que cumpria bem o básico “arroz com feijão” sem apoio de esferas superiores da política. Entendi na prática o que é a política da vida real. Fui refém do silenciamento da própria personalidade para obter no fim do mês o provento que folgava as contas. Os caminhos que me levaram até lá pelas primeiras portas abertas, me eram também caminhos que dificultavam o abrochar daquilo que eu sempre pensei ou quis pensar. Todavia, sendo a primeira oportunidade de mostrar um talento ou capacidade de atuação, aceitei, e por aceitar estar num time que teve a minha palavra até o final, mesmo eu sabendo que perderia em outubro de 2024, rotularam-me de “direitista”, “ele não é confiável”, “ele não é capaz”, “ele não é de esquerda”. Mal sabiam eles que nas eleições para deputado e alguns outros cargos públicos em 2022 eu votei discretamente em candidatos da esquerda, mas que não poderia revelar.

O que quero dizer com isso? É muito simples: Pelo sim ou pelo não, e considerando a escassa falta de apoio e recursos que obtive na época, todos os cargos que eu assumi, fiz deles minha melhor atuação. Honrei da melhor forma possível tudo o que estava sob o meu pouco controle e autonomia, e em segredo eu tinha a plena certeza: Quando eu puder estar onde eu quero e devo estar, ainda que enfrentando qualquer rótulo ou dúvida imputada a mim, eu sempre serei a melhor opção de aliado. Se com tão pouco e sem muita referência eu fiz muito, avalie tendo condições.

Aos meus críticos, não olhem os calçados que me deram no começo para dar uma partida inicial, deem-me bons tênis e verão o topo do pódio ser assumido por mim, e não fiquem invejados por causa disso, afinal, existe espaço para todo mundo. Ainda que pouco pelas maneiras mais inusitadas, eu fui algo e o mérito disso não podem me tirar. Aos que não acham que sou de esquerda, ou até mesmo fazer a diferença nesse espectro ideológico, saiam às ruas como nas antigas greves da classe trabalhadora e bradem uma organização à altura daquilo que se acham ser. Nada é melhor para a esquerda que alguém que sempre esteve nela, e que somente agora pode se manifestar. Nada é pior para a esquerda que alguém que sempre esteve nela na condição de filiado ou simpatizante, mas que ao mesmo tempo nunca entendeu o curso histórico do mesmo. Nada é melhor para a esquerda que alguém tentando ser algo pela própria consciência de classe. Nada pior para a esquerda que alguém que está nele, mas seu coração operando contra seus próprios irmãos, com a suja causa de ser mais do que o próprio fundamento que deve imperar na emancipação humana.