Racha entre Motta e Alcolumbre trava pautas do Congresso

Rejeição da PEC da Blindagem amplia tensão entre Hugo Motta e Davi Alcolumbre, colocando em risco agendas importantes do Congresso Nacional.

A rejeição da chamada PEC da Blindagem pelo Senado ampliou a tensão entre os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O episódio escancarou o distanciamento entre os dois principais líderes do Congresso e provocou uma crise que já ameaça paralisar pautas legislativas prioritárias, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a anistia a envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, segundo informações do jornal O Globo.

Classificada pelo Palácio do Planalto como uma “vergonha nacional”, a derrota da PEC deixou a Câmara isolada e gerou forte insatisfação entre deputados, que consideram ter sido submetidos a um desgaste político desnecessário. Motta saiu enfraquecido, enquanto Alcolumbre, que se afastou das negociações, evitou protagonismo.

Risco de contaminação da pauta do IR

Deputados temem que a crise entre as Casas contamine outras votações importantes, como a proposta de isenção do IR, prioridade da Câmara. Enquanto isso, o Senado avançou com um projeto alternativo relatado por Renan Calheiros (MDB-AL), ampliando ainda mais o fosso entre as duas Casas.

Tentativas de apaziguamento não surtiram efeito

Apesar do clima de embate, Motta tentou minimizar os atritos. “O Senado se posicionou e bola pra frente. Temos um sistema bicameral, cabe aceitar. Não tem sentimento de traição nenhum”, afirmou, destacando que divergências entre Câmara e Senado são naturais no processo democrático.

Na última quarta-feira (24), Motta e Alcolumbre estiveram no mesmo jantar promovido pelo presidente do STF, Luís Roberto Barroso, mas a interação entre os dois foi mínima. Uma reunião que serviria para reaproximação foi cancelada. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) tenta intermediar um novo encontro na próxima semana, mas aliados reconhecem que a desconfiança mútua ainda é um obstáculo.

Liderança de Motta é questionada

Dentro da Câmara, aliados de Hugo Motta admitem que houve falha de articulação. A avaliação é que a PEC deveria ter sido votada de forma coordenada entre as duas Casas para evitar o desgaste. Parlamentares criticam o estilo de liderança de Motta, que teria cedido excessivamente às pressões de Arthur Lira (PP-AL) e Ciro Nogueira, e apontam que sua fragilidade ficou mais evidente desde o motim de agosto, sendo agravada agora.

Deputados próximos ao presidente da Câmara, no entanto, sustentam que havia um acordo político entre Republicanos, União Brasil e PP, com aval prévio de Alcolumbre, para aprovar a proposta. Senadores, por sua vez, negam que o presidente do Senado tenha dado sua palavra final.

Texto polêmico acirrou os ânimos

Segundo aliados de Alcolumbre, o texto aprovado pela Câmara destoava do que havia sido negociado, especialmente em dois pontos sensíveis: o retorno do voto secreto para abertura de ação criminal contra parlamentares e a ampliação do foro privilegiado para presidentes de partidos — emenda atribuída a integrantes do União Brasil.

Com o Centrão irritado, líderes da Câmara ameaçam retaliar, endurecendo a pauta legislativa. Estão em discussão projetos como a PEC da Segurança e o calendário do IR. Ainda assim, aliados recomendam cautela e apostam na mediação de Ciro Nogueira como saída para o impasse.

Guerra fria institucional

Apesar das rusgas, há consenso de que um confronto prolongado entre Câmara e Senado não interessa a nenhuma das partes. A avaliação interna no Congresso é que a agenda legislativa depende de um mínimo de coordenação entre as duas Casas.

Como gesto de distensão, o Senado pode retomar nos próximos dias a discussão sobre a PEC que limita decisões monocráticas do STF, proposta vista como alternativa para restabelecer a cooperação institucional — ainda que parcial.