Neto do último general-presidente da ditadura militar brasileira, Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, 42 anos, tornou-se uma figura central da extrema direita bolsonarista — tanto por suas conexões familiares quanto por sua atuação como influenciador digital, comentarista e empresário com laços internacionais controversos.
Filho do primogênito de João Figueiredo, general do Exército que comandou o país entre 1979 e 1985, Paulo Figueiredo carrega o legado da ditadura militar. Formado em economia, Figueiredo começou sua carreira no ramo da hotelaria de luxo no Rio de Janeiro e, a partir dali, construiu relações com o então empresário Donald Trump. Foi sócio do ex-presidente dos EUA na tentativa de implantação do Trump Hotel no Rio — projeto que naufragou e acabou envolvido em escândalos de corrupção.
Em 2019, Figueiredo foi preso em Miami por suspeita de envolvimento num esquema de pagamento de propinas a dirigentes do BRB (Banco de Brasília), para viabilizar o mesmo empreendimento. Seu nome constava na lista de procurados da Interpol, e ele passou 17 dias detido, além de dois anos submetido a medidas cautelares. A experiência, diz ele, o “preparou” para os embates atuais com as instituições brasileiras.
Foi a partir de 2020, como comentarista da rádio Jovem Pan, que ganhou maior notoriedade no cenário político. Em meio à radicalização bolsonarista, tornou-se uma voz ativa na disseminação de teorias conspiratórias, ataques a instituições democráticas e incitações à ruptura institucional. Em transmissões ao vivo, chegou a defender uma guerra civil no Brasil, e, ao mesmo tempo, considerou os atos de vandalismo do 8 de Janeiro como uma “estupidez sem tamanho”. O comentário foi feito em diálogo com Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, que lhe revelou que o então presidente se recusara a condenar os atos naquele momento.
Apesar da aparente tentativa de se descolar da violência explícita do 8 de Janeiro, Figueiredo é apontado pela Procuradoria-Geral da República como integrante de um núcleo ativo na articulação golpista. Segundo investigações da Polícia Federal e relatório do STF, ele teria participado de uma operação coordenada com generais e coronéis do Exército para pressionar o Alto Comando a aderir à tentativa de golpe de Estado, criando um ambiente de intimidação pública contra os militares que se recusassem a embarcar na ruptura institucional.
Influente nas redes — embora tenha tido seus perfis suspensos por ordem do STF —, Figueiredo se apresenta como “jornalista censurado” e “baseado nos EUA”, onde ministra cursos que atraem parlamentares bolsonaristas. Em janeiro de 2025, organizou um curso nos EUA com temas como “ativismo judicial”, “agenda woke”, aborto e redes sociais, com a participação de nomes como Eduardo Bolsonaro, Jorge Seif e Mario Frias.
Paulo Figueiredo também tem sido peça-chave na ofensiva internacional bolsonarista, especialmente na tentativa de desgastar ministros do Supremo como Alexandre de Moraes junto a setores conservadores dos Estados Unidos. Em fevereiro de 2025, foi denunciado formalmente pela PGR por participação em tentativa de golpe, acusado de instrumentalizar sua posição como comunicador para instigar militares e promover desinformação antidemocrática.
Mesmo diante das acusações, Figueiredo insiste em que sua perseguição é política. Em entrevista ao UOL, afirmou que sempre condenou os atos de 8 de janeiro e que o indiciamento não passa de retaliação.
Seu avô ditador
João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918–1999) foi o último presidente do regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. General do Exército, assumiu a presidência em 1979 com a missão de conduzir o processo de transição do país da ditadura para a democracia, em um período conhecido como “abertura lenta, gradual e segura”.
Nascido no Rio de Janeiro, Figueiredo teve formação militar tradicional e trajetória consolidada nas Forças Armadas. Atuou como chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) e, posteriormente, como chefe do Gabinete Militar do presidente Ernesto Geisel, seu antecessor.
Durante seu governo (1979–1985), promulgou a Lei da Anistia, que permitiu o retorno de exilados políticos, mas também anistiou agentes do regime acusados de crimes de tortura e repressão. Extinguiu o bipartidarismo e autorizou a formação de novos partidos políticos. Seu mandato foi marcado por crises econômicas, inflação alta, greves trabalhistas e crescente pressão popular por eleições diretas — culminando na campanha pelas Diretas Já.
Figueiredo era conhecido por seu temperamento impulsivo e declarações polêmicas, como quando disse que preferia “cheirar cavalo a povo”. Após deixar a presidência, com a eleição indireta de Tancredo Neves, afastou-se da vida pública. Faleceu em 1999, no Rio de Janeiro, aos 81 anos.